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terça-feira, 18 de março de 2014

Como se fabricam crianças loucas

18/3/2014 Como sefabricam crianças loucas | Opinião | Edição Brasil no EL PAÍS
http://brasil.elpais.com/brasil/2014/03/17/opinion/1395072236_094434.html 1/7
OPINIÃO
ELIANE BRUM 17 MAR 2014 - 13:03 BRT
A “menina louca”
tinha indagado
sobre a estrutura
do Estado e da
sociedade que a
obrigava a dar o
primeiro passo
COLUNA
Como se fabricam crianças loucas
Os manicômios não são passado, são presente. Uma pesquisa realizada no hospital psiquiátrico
Pinel, em São Paulo, mostra que, mesmo depois das novas diretrizes da política de saúde mental no
Brasil, crianças e adolescentes continuaram a ser trancados por longos períodos, muitas vezes sem
diagnóstico que justificasse a internação, a mando da Justiça. Conheça a história de Raquel: 1807
dias de confinamento. E de José: 1271 dias de segregação. Ambos tiveram sua loucura fabricada
na primeira década deste século
Arquivado em: Opinião Psicologia clínica Crianças Psicologia Doenças mentais Hospitais Infância Assistência sanitária Especialidades médicas Previdência
Problemas sociais Doenças Medicina Sociedade Ciência Saúde
Em uma noite de novembro de 2007, a psicóloga Flávia Blikstein escutou de uma menina duas
perguntas. E descobriu que não tinha respostas. Flávia trabalhava num Centro de Atenção
Psicossocial (CAPS) infantil, em São Paulo, e encontrava-se na ambulância para levar a garota
para sua primeira internação psiquiátrica. Maria, como aqui será chamada, tinha 14 anos. Era
negra, alta e magra. Falava pouco, frases curtas. Gostava de brincar de boneca e de desenhar.
Às vezes pintava as unhas, arrumava o cabelo, anunciando a adolescência. Maria se molhava o
tempo todo, em pequenos rituais. Abria a torneira, fazia uma conchinha com as mãos e
molhava os pés, as pernas, os braços. Fazia isso em qualquer lugar, causando vergonha à
mãe. Talvez Maria estivesse esculpindo com a água os limites do próprio corpo. Quando fez a
primeira pergunta à Flávia, ela ainda tinha as pontas dos dedos úmidas, e o seu olhar também
era molhado:
- Por que eu vou ficar aqui?
Flávia descobriu que não tinha resposta.
Maria fez então a segunda pergunta:
- Quem tá aí? Quem vai dormir no quarto comigo?
Flávia descobriu que não tinha resposta também para essa. Não tinha resposta porque, ao
contrário do que costuma acontecer quando crianças e adolescentes nos mostram a face do
abismo, ela tinha escutado as perguntas. Escutado mesmo. A “menina louca” tinha indagado
sobre a estrutura do Estado e da sociedade que a obrigava a dar o primeiro passo para dentro
de uma instituição psiquiátrica. Talvez Maria intuísse que esse passo poderia ser longo. Talvez
Maria adivinhasse que os dentes do sistema estavam à sua espera, logo ali.
Flávia abraçou Maria. E pediu desculpas por não saber responder. Maria entrou, carregando
olhos molhados e pontos de interrogação.
O que Maria perguntou à Flávia, perguntou a todos nós: por que, no
século 21, crianças e adolescentes brasileiros, a maioria filhos de
famílias pobres, continuam a ter suas vidas mastigadas num hospital
psiquiátrico. A “criança louca” fez aos normais a pergunta mais lúcida:
por que a condenavam a uma existência de manicômio. A habitar um
mundo de dor, vagando entre paredes, desvestindo a si mesma para
vestir um uniforme, sem direito ao desejo. Por que lhe negavam a
humanidade tão cedo.
Flávia não pôde esquecer as perguntas, menos ainda a sua falta para dentro de
uma instituição
psiquiátrica
Flávia sabia que aquilo que
se costuma chamar de
arquivo morto era bem vivo.
Então, botou-o para falar.
Analisou 451 casos,
correspondentes a 611
internações ocorridas entre
janeiro de 2005 e dezembro
de 2009
respostas. Dedicou-se a buscá-las. Encontrou-as no arquivo do
Núcleo da Infância e da Adolescência (NIA) do Centro de Atenção
Integrada em Saúde Mental (CAISM) Philippe Pinel. O Pinel é uma
das instituições de referência para internação de crianças e
adolescentes com problemas mentais no estado de São Paulo.
Flávia sabia que aquilo que se costuma chamar de arquivo morto era bem vivo. Então, botou-o
para falar. Fechou-se na pequena sala bordada de estantes durante todos os sábados de um
ano inteiro. Analisou 451 casos, correspondentes a 611 internações ocorridas entre janeiro de
2005 e dezembro de 2009. Destes, 79% das crianças e adolescentes haviam sido internados
apenas uma vez. Os 21% restantes tiveram de duas a sete reinternações. Alguns casos, que
continuaram a voltar ao Pinel, ela acompanhou também nos anos de 2010 e 2011. Flávia
queria saber qual era o percurso que levava crianças e adolescentes ao hospital psiquiátrico
como primeira providência – e não como exceção pontual e por tempo determinado.
O arquivo do Pinel ficava logo abaixo da enfermaria das crianças e adolescentes. Enquanto
pesquisava, Flávia podia ouvir os gritos. Percebeu, porém, que mais do que gritos havia um
silêncio longo. Um silêncio, nas suas palavras, “estranho e profundo, um silêncio que não
imaginamos num lugar cheio de crianças e adolescentes”. Dentro do arquivo, não. Os
prontuários contavam histórias. Ainda que a voz de meninos e meninas ressoasse mais nas
ausências, nas entrelinhas, os prontuários diziam de infâncias aniquiladas numa vida de
manicômio. E mostravam por que caminhos a fabricação de crianças loucas é uma verdade
profunda do Brasil. Flávia chamava o arquivo de “sala das almas”. E as almas falavam.
Duas crianças, que se transformaram em adolescentes no hospital psiquiátrico, contaram
histórias que poderiam ilustrar livros escabrosos sobre os manicômios do passado, mas que
se passaram na primeira década desse século. Aqui, elas serão chamadas de José e de
Raquel. José permaneceu confinado por 1271 dias – ou três anos e cinco meses. Raquel, por
1807 dias. Ficou trancada dos 11 aos 16 anos – e de lá foi transferida para outra instituição
psiquiátrica. José e Raquel estavam segregados no Pinel, a mando da Justiça, sob reiterados
protestos da equipe técnica. Foram depositados como coisas no Pinel porque ainda é este o
destino dado a crianças como eles no Brasil.
Por quê?
É preciso prestar muita atenção às respostas que Flávia encontrou.
Sua escuta de três mil horas dentro do arquivo transformou-se numa
dissertação de mestrado em psicologia social na Pontifícia
Universidade Católica (PUC) de São Paulo. Somando-se a trabalhos
fundamentais de outros pesquisadores do tema, tanto em São Paulo
como em vários estados do Brasil, a investigação mostra por que os
manicômios persistem apesar das diretrizes da política de saúde
mental e do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). A Lei nº
10.216, de 2001, orientada pela reforma psiquiátrica, prioriza o
atendimento em rede, em serviços inseridos na comunidade, perto
da família, e determina que a internação só pode ocorrer depois de
esgotados todos os recursos extra-hospitalares. Não é o que
acontece em casos demais.
“Medievais”, “desumanos” e “criminosos”. Essas são algumas das palavras usadas para definir
os hospícios desde que a luta antimanicomial se intensificou a partir do final dos anos 1970 e
conquistou avanços significativos nesse século. A pesquisa mostra, porém, que mesmo
instituições e profissionais que tentam fazer diferente são seguidamente vencidos pelas
engrenagens e pela escassez de serviços públicos de base. Na prática, ainda hoje, é de
manicômio e de vida manicomial que se trata em uma parte significativa dos casos, uma
realidade só possível pelo descaso quase absoluto da sociedade com o destino dessas
crianças, em geral filhas de famílias pobres. Ao fazer o arquivo morto falar, Flávia constrói
respostas que precisam ser escutadas se quisermos, de fato, estancar o crime de fabricar
crianças loucas – e, muitas vezes, também o de conseguir enlouquecê-las.
Ela queria saber
qual era o
percurso que
levava crianças e
adolescentes ao
hospital
psiquiátrico como
primeira
providência – e
não como exceção
pontual e por
tempo
determinado
Raquel nasceu em 1994. A mãe estava presa por tráfico de drogas, não porque era chefe de
uma organização criminosa, mas porque vendia uma pequena quantidade para sustentar seu
próprio vício. Esse destino é comum nos presídios do país, é também gerador de órfãos de
mães vivas. Pobre demais para dar conta dela, a avó colocou Raquel num abrigo aos cinco
anos. A menina é de imediato descrita como “agressiva”. E, por esse motivo, é afastada das
outras crianças. Passa a morar com o que se chama de “mãe social”, isolada numa casa nos
fundos do abrigo. A escolha, como mostra Flávia, evidencia que, desde sempre, a resposta à
agressividade de Raquel é a exclusão. Obviamente, também não deu certo. De abrigo em
abrigo, Raquel virou aquela que “não dava certo” em abrigo nenhum.
Talvez valesse a pena perguntar se a agressividade, ao se olhar para o contexto e as
circunstâncias, não era o principal traço de sanidade de Raquel. Mas o direito à história é o
primeiro a ser arrancado das “crianças loucas”. Ela já tinha quase tantos rótulos quanto anos de
vida: filha de presidiária, abandonada, agressiva, não dá certo... Raquel só era vista por
estigmas e fragmentos.
Negra como Maria, ela foi internada pela primeira vez em 2005, aos
11 anos. Entrou no sistema por ordem da Justiça. Antes de
seguirmos o seu destino, é crucial entender as duas formas de
entrada nas instituições psiquiátricas, identificadas pela pesquisa.
Nelas se encontra uma das chaves para compreender a fabricação
das crianças loucas no Brasil atual. Assim como os caminhos pelos
quais é mantida viva a função histórica dos manicômios como lugar
de segregação daqueles que são decodificados como perigosos
para a ordem social, ainda que sejam apenas pobres e
abandonados.
Em pouco mais da metade dos casos – 55% – o pedido de
internação psiquiátrica foi feito por familiares e por diferentes
serviços da rede de saúde. Nos outros 45%, crianças e
adolescentes foram internados por ordem judicial. Estes são os dois
caminhos de entrada nos hospitais psiquiátricos. A pesquisa
mostrou, porém, algumas diferenças fundamentais para
compreender o problema: no período pesquisado, a Justiça internou
mais cedo, por mais tempo e mais vezes. A maioria dos casos era
de adolescentes, mas as crianças respondiam por 20% das internações por ordem judicial.
Pela via da rede de saúde, menos de 6% eram crianças. Por ordem judicial, o tempo médio de
internação era quase o dobro (55 dias contra 30). A Justiça também foi responsável por 92%
das internações com duração maior do que 150 dias. Entre os 14 casos que sofreram
internações de quatro a sete vezes, 12 tinham sido confinados por ordem judicial.
Entre eles, Raquel. Dos 11 aos 16 anos, ela foi internada seis vezes no Pinel. A queixa da
primeira vez: “Paciente institucionalizada há oito meses (nome de outro hospital), com
transtorno de comportamento, heteroagressiva (agressividade dirigida a terceiros), em
tratamento ambulatorial pouco resolutivo”. Depois de seis dias, o Pinel deu alta e a menina foi
encaminhada a um abrigo. Oito dias mais tarde, ela foi novamente internada por ordem judicial:
“Paciente portadora de transtorno de conduta grave. Uma vez no abrigo, voltou a ficar
agressiva. Crítica seriamente comprometida, ameaçadora”. Outros 19 dias de internação, e o
Pinel pediu à justiça que ela tivesse alta. Passada uma semana, o pedido foi atendido, e ela
voltou ao abrigo. Mais três dias e Raquel de novo foi internada no Pinel por ordem judicial: “Ao
retornar ao abrigo volta a apresentar quadro importante de liberação de agressividade e falta
de controle de impulsos”. Raquel ficou trancada no Pinel por 1004 dias.
Nessas três primeiras vezes, tornou-se evidente que a justiça internava e o hospital liberava,
porque não havia razão para manter Raquel confinada. Documentos anexados ao prontuário
mostram que a direção da instituição enviou diversos relatórios à justiça, tanto informando da
alta médica da paciente quanto pedindo encaminhamento a um abrigo e tratamento
ambulatorial. Num dos documentos, a direção afirma: “Nosso hospital está fazendo o papel “Medievais”, “desumanos” e
“criminosos”. Essas são
algumas das palavras usadas
para definir os hospícios
desde que a luta
antimanicomial se
intensificou a partir do final
dos anos 1970
No total, Raquel
ficou trancada no
Pinel cinco anos.
Sublinha-se: sem
necessidade. Sua
vida cabe em três
caixas do arquivo. Mas esse não foi o
fim de sua
trajetória
manicomial. Em
2010, aos 16 anos,
ela foi transferida
para outro hospital
psiquiátrico
Abrigo para esses adolescentes. Sabedores dessa ilegalidade pedimos com urgência uma
resolução para esse problema”. E, em outro ofício: “Atualmente a adolescente continua
residindo na enfermaria para tratamento de pacientes agudos, encontra-se longe da escola e
com enormes prejuízos psicológicos e sociais”.
A cada três meses, o Pinel mandou ofícios à justiça. Só foi atendido
depois de quase dois anos e nove meses. Mas a vida de Raquel fora
do hospital durou apenas uma semana. Mais uma vez ela foi
internada na instituição. O motivo: “Evolui com episódios recorrentes
de agressividade, fugas necessitando atendimento em unidades de
emergência. Há dois dias em acompanhamento no CAPS sem
aderência ao tratamento”. Depois de mais 413 dias de internação,
Raquel fugiu do hospital. Voltou espontaneamente dois dias mais
tarde. Para onde mais ela iria, já que o longo período de
confinamento esgarçou ainda mais os frágeis vínculos familiares e a
impediu de criar novos?
Raquel permaneceu internada mais 244 dias, antes de ser encaminhada a outro abrigo. Quinze
dias fora do hospital, e a justiça mandou-a de volta: “Jogou fora seus remédios, quebrou o
vidro da brinquedoteca, feriu-se, pegou o telefone para se enforcar e fugiu para uma cidade
vizinha dizendo que ia procurar seus avós”.
Na sexta vez, está registrado no prontuário: “A paciente verbaliza que a maior dificuldade que
enfrentou no retorno ao abrigo foi uma sensação de inadequação na convivência com
adolescentes sem problemas psiquiátricos; infelizmente, criou-se um vínculo inadequado
iatrogênico (provocado pela própria prática médica) de segurança com o ambiente de
internação, o que se configura como Hospitalismo”.
Em outras palavras. Raquel não sabia mais viver fora do hospital psiquiátrico, seus vínculos
estavam dentro da instituição. Se tinha a algum afeto, era ali. Era no hospital que ela sabia
como se comportar, identificava uma rotina, fazia amigos entre outras crianças e adolescentes
como ela ou realmente doentes. Considerava profissionais de saúde como parentes. E, mais
tarde se saberia, quebrava coisas e agredia pessoas quando era mandada para o abrigo
porque sabia que assim voltaria àquele que era o único lugar parecido com um lar que tivera na
vida.
Nessa época, a direção do Pinel mandou mais um ofício à justiça:
“Aproveito a oportunidade para dizer da indignação dessa equipe
técnica que, por diversas vezes, acionou o judiciário solicitando a
desinternação desses adolescentes que, na ocasião, precisavam
apenas de um abrigo para moradia e dar continuidade ao
atendimento ambulatorial, tendo assim seu direito constituído”.
No total, Raquel ficou trancada no Pinel cinco anos. Sublinha-se: sem
necessidade. Sua vida cabe em três caixas do arquivo. Mas esse
não foi o fim de sua trajetória manicomial. Em 2010, aos 16 anos, ela
foi transferida para outro hospital psiquiátrico.
O diagnóstico que sustentou a condenação de Raquel a uma vida
manicomial é bastante revelador: “transtorno de conduta”. Segundo a
Classificação Estatística Internacional de Doenças (CID), “os
transtornos de conduta são caracterizados por padrões persistentes
de conduta dissocial, agressiva ou desafiante. Tal comportamento
deve comportar grandes violações das expectativas sociais próprias
à idade da criança; deve haver mais do que as travessuras infantis ou
a rebeldia do adolescente e se trata de um padrão duradouro de
comportamento (seis meses ou mais)”. Essa “patologia”, assim
como outras que compõem a CID, é contestada por parte dos
psiquiatras, psicanalistas e psicólogos, assim como por profissionais de outros campos
Em sua investigação, Flávia
mostrou que o diagnóstico
de “transtorno de conduta”
tem sido usado de modo
generalizado – e quase
displicente – para justificar
internações em hospitais
psiquiátricos
conhecimento. Mas, ainda que se aceite que essa doença de fato existe, o tratamento
recomendado é inserção comunitária – e não asilamento.
Em sua investigação, Flávia mostrou que o diagnóstico de “transtorno de conduta” tem sido
usado de modo generalizado – e quase displicente – para justificar internações em hospitais
psiquiátricos. Tanto na internação pela via da rede de saúde como na internação por ordem
judicial, o principal diagnóstico é esquizofrenia. Mas o “transtorno de conduta” tem aumentado.
Numa comparação com uma pesquisa anterior, na qual Julia Hatakeyama Joia analisou os
prontuários do Pinel entre fevereiro de 2001 e agosto de 2005, Flávia constatou que os
chamados “transtornos do comportamento e transtornos emocionais” – dos quais “transtornos
de conduta” correspondem a 75% dos casos – cresceram como motivo de confinamento. Em
2002, eram causa de 5,26% das internações. Passaram para 7,14% em 2005. E alcançaram
15,2% das ocorrências em 2009. “Em muitos casos, é diagnosticado em crianças com
episódios de descontrole e agressividade, sem que exista uma análise sobre sua história e
contexto de vida”, afirma a psicóloga. Outro dado comparativo de extrema relevância é que,
entre 2001 e 2004, a proporção de internações no Pinel por ordem judicial era de 23% do
total. De 2005 a 2009 saltou para 45%.
O “transtorno de conduta” é bem mais recorrente na internação por
ordem judicial do que na internação pela via da rede de saúde. É o
diagnóstico de um quarto das internações com duração maior do que
150 dias e por mais de um terço dos casos de crianças e
adolescentes internados de quatro a sete vezes. É o rótulo de
Raquel – e também o de José. Meninos representam quase 80%
das crianças e adolescentes internados, um dado cujas razões
precisam ainda ser melhor compreendidas.
José tinha 10 anos quando deu o primeiro passo para dentro do
Pinel, por ordem judicial. Tinha passado, segundo o relatório da
instituição, por “maus tratos, negligências e privação afetiva”.
Apresentou “comportamentos desafiadores e transgressores, o que resultou em rejeição e
abandono familiar, principalmente de sua mãe”. A mãe decidiu entregá-lo para o pai, na Bahia.
No dia da viagem, José recusou-se a ir. Ele não queria se separar da mãe. Para não ser
obrigado a viajar, por duas vezes tentou se jogar diante dos carros, na rua. A “crise de
agitação” levou à sua primeira internação. A duração: 623 dias.
Quando teve alta, José foi encaminhado a um abrigo. Permaneceu apenas três dias antes de
ser internado novamente. Dessa vez, ficou trancado por 255 dias. José fugiu. Para onde? Para
a casa de mãe. Mais uma internação, por “agitação psicomotora com intensa
heteroagressividade, baixa tolerância à frustração, sem crítica, e risco de vida”. Dessa vez,
ficou 84 dias na instituição antes de fugir novamente. Para onde? Para a casa da mãe. Na
quarta e última internação, ele permaneceu 309 dias no Pinel. Foi então encaminhado para um
abrigo. De onde fugiu. Para a Bahia, em busca de um lugar e de um afeto.
No total, José ficou 1271 dias trancado no Pinel: três anos e cinco meses. Sobre José e
Raquel, a equipe técnica do hospital enviou um ofício à Justiça, em 2008: “(...) Estão em alta
médica, mas permanecem nesta enfermaria psiquiátrica para tratamento de pacientes com
transtornos mentais agudos, privadas de ter uma vida digna, por não terem retaguarda familiar
e não existirem vagas em abrigos”. Sobre esse destino, Flávia afirma: “As internações são
motivadas por uma combinação complexa, que resulta numa situação de vulnerabilidade. A
resposta da internação psiquiátrica, além de redutora de complexidade, é ela mesma
produtora de maior sofrimento. A internação por ordem judicial revela uma concepção sobre a
infância e a adolescência pautadas no medo e no perigo. Propõe uma resposta única a todas
as situações, sem considerar diferenças, singularidades e contextos. Reduz crianças e
adolescentes ao status de paciente psiquiátrico perigoso, produzindo sua cronificação”. É
assim que se fabricam crianças loucas.
Vale a pergunta: fugir pode ter sido um ato de sanidade de José, na tentativa de não ser
enlouquecido? De algum modo, apesar de tudo e de todos, ele parece acreditar que existe um
O desafio exposto
pela pesquisa é
também o de
completar a
reforma
psiquiátrica no
Brasil. Crianças e
adolescentes,
segundo a
legislação, devem
ser tratados dentro
da comunidade,
junto à família,
sem afastamento
da escola
lugar para ele, um lugar com afeto. José, Raquel e Maria nos mostram que não há desamparo
maior do que o de uma criança num manicômio. Ninguém está mais sozinho nesse mundo do
que José, Raquel e Maria. Expostos a uma sociedade que, além de não protegê-los, os
enlouquece. Eles fogem, como José, eles quebram tudo, como Raquel, eles fazem perguntas,
como Maria. Mas estão sozinhos. E cada um de seus atos de resistência é mais um carimbo
de sua suposta loucura num arquivo morto.
Ao analisar os prontuários, Flávia conseguiu identificar claramente as
diferenças entre a internação via rede de saúde e a internação por
ordem judicial. Essas são conclusões cruciais do trabalho, porque
apontam o que funciona e o que não funciona, apontam saídas. Na
rede de saúde, a maior parte dos encaminhamentos é feita pela
emergência de hospitais, o que não é o melhor percurso. Apenas 8%
são enviados para internação por Unidades Básicas de Saúde ou por
CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) infantil, que deveriam ser a
porta de entrada para crianças e adolescentes com sintomas de
doenças mentais. Esses dados demostram a falta desses serviços,
causando desamparo na população que necessita de assistência
pelo SUS. Em vez de começarem o tratamento pela rede básica,
inserida na comunidade, o iniciam pelo fim e por aquilo que é uma
exceção necessária num mínimo de casos: a internação. A hipótese
de Flávia é de que, se houvesse mais serviços comunitários de
saúde mental, como está previsto na legislação, é provável que a
necessidade de internação fosse bem menor. Em vez do hospital
psiquiátrico, uma rede articulada, com investimento maior em
equipes de saúde mental, na capacitação e implantação do
Programa de Saúde da Família e de centros de atenção
psicossocial. “A patologização das crianças em situação de
vulnerabilidade social evidencia a precariedade da rede de atenção e cuidado, e também a
insuficiente articulação entre as políticas públicas nos campos da educação, saúde, habitação
e lazer”, afirma.
A diferença é clara na análise dos dados. Nos casos encaminhados pelos Centros de Atenção
Psicossocial, a média de dias de internação é mais baixa do que pelos outros caminhos.
Quando crianças e adolescentes são cuidados pelos CAPS depois da alta, apenas 3% são
reinternados. “Isso mostra que os serviços comunitários funcionam, mas são em número
insuficiente”, afirma Flávia. “Nos pacientes encaminhados pela rede de saúde, o hospital
funciona como enfermaria de crise. A maioria é de adolescentes de 15 a 17 anos, em seu
primeiro surto psicótico, que são cuidados e liberados. Já na internação por via judicial, o
hospital funciona como instituição de asilamento.”
O desafio exposto pela pesquisa é também o de completar a reforma psiquiátrica no Brasil.
Crianças e adolescentes, segundo a legislação, devem ser tratados dentro da comunidade,
junto à família, sem afastamento da escola. A doença, se de fato existe, deve ser
compreendida como uma das várias características – e não como a verdade única sobre
aquela criança e adolescente. Mesmo a internação, se for necessária, deve ser entendida
como uma parte da história – e não como a história inteira. A internação é um momento, não
um destino.
Flávia permanecia das 10h até as 21h de cada sábado na sala das almas do Pinel. Numa noite,
estava tão mergulhada nos prontuários que se esqueceu da hora e se atrasou para sair. O
guarda do portão recusou-se a deixá-la ir. Eram as regras. Ele não estava ali para pensar sobre
elas, mas para cumpri-las. E Flávia soube o que era estar entre muros – e não ser escutada.
Depois de um tempo que pareceu largo demais, Flávia conseguiu provar que era uma
psicóloga, fazendo um trabalho de pós-graduação para a PUC. Acredita que o fato de ser
branca, loira e de olhos azuis possa ter ajudado na sua “soltura”. Mas, ao abrir o portão, o
segurança alertou: “Na próxima vez, fica”. Por um momento, trêmula, Flávia teve uma tênue
aproximação do que sentiram Raquel, José e Maria, apenas três entre as centenas de
“crianças loucas” fabricadas nesse século.
Ao final de sua estadia no arquivo morto que ela descobriu ser vivo, Flávia finalmente tinha as
respostas para Maria.
1) Por que eu vou ficar aqui?
- Porque as instituições que compõem a rede de atendimento à criança e ao adolescente
trabalham de forma desintegrada e não conseguem atender às suas necessidades.
2) Quem tá aí? Quem vai dormir no quarto comigo?
- As crianças e os adolescentes que tiveram seus destinos produzidos ativamente pela
desresponsabilização e pelo abandono.
Maria perguntou. Flávia escutou. Escutou de fato não quando a ouviu, mas quando fez o
movimento de buscar as respostas. Elas estão aí, mas só provocarão mudança se o Estado,
os governos e a sociedade as escutarem. Se nós as escutarmos. É, afinal, de escuta que se
trata.
Flávia desconhece o paradeiro de José. Raquel foi libertada ao completar 18 anos. Mas o que
há para Raquel depois do que fizemos com ela? É possível, é moral, é decente dizer à
Raquel: vá estudar, vá trabalhar, vá construir uma vida? “É uma marca tão profunda que
pessoas como Raquel, mesmo saindo da instituição, continuam institucionalizadas”, diz Flávia.
“A institucionalização parece uma grande máquina que suga a potência humana, criando seres
humanos sem desejo. A institucionalização é a patologia mais grave da saúde mental.”
Aos 19 anos, Raquel hoje perambula pelas ruas e albergues de São Paulo, ao redor das
instituições. Às vezes declara-se “louca” e é internada por curtos períodos. Raquel sempre
pergunta pelo seu melhor amigo:
- Onde está José?
Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficção Coluna Prestes - o Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém vê,
O Olho da Rua, A Menina Quebrada, Meus Desacontecimentos e do romance Uma Duas. Email: elianebrum@uol.com.br. Twitter:
@brumelianebrum

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