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sexta-feira, 18 de julho de 2014
quarta-feira, 16 de julho de 2014
Nise da Silveira
Texto originalmente publicado em http://www.canalciencia.ibict.br/notaveis/livros/nise_da_silveira_43.html
Nise da Silveira
(1905 - 1999)
Entrevistas
e texto de Maria Ignez Duque Estrada (Ciência Hoje)
Publicado
em agosto de 1987.
O
que dizer de dra. Nise? Penso de imediato num sentimento do mundo feito de
espanto e paixão. Se não, como entender sua atitude face à loucura? Só a paixão
pode ver na loucura o sublime, só o espanto pode nos mostrar incansavelmente
aquilo que tão facilmente esquecemos: o louco é um homem, logo imprevisível e
criador.
Por
que, então, reter deste imenso entusiasmo pela verdade apenas as conseqüências
artísticas ou estéticas? Vamos aos fatos. Muito já se falou de dra. Nise; dos
artistas que ela revelou; do seu parentesco teórico com Jung e de seu notável
Museu de Imagens do Inconsciente. Sem dúvida, as belas obras e a alta cultura
encantam, fascinam. Mas dra. Nise cabe inteira numa teoria ou num hipnótico
amor pelas artes plásticas? Duvidamos. Dra. Nise ama o belo, isto é inequívoco.
Porém no coração da loucura ela buscou algo além da beleza. A beleza foi um
meio eloqüente de dizer: Vejam o que a psiquiatria asilar pode fazer com quem
faz aquilo que tantos admiramos. A beleza nas imagens do inconsciente é denúncia.
Denúncia do asilo, do exercício burocrático das profissões psiquiátricas e da
sociedade, que cultua tais deformidades.
É
a isto que pretendemos fazer coro. Não custa lembrar, dra. Nise precedeu em
muitos aspectos a antipsiquiatria, a psiquiatria democrática e mesmo as
comunidades terapêuticas, no que este movimento teve de melhor, de menos
ingênuo. Antes de Laing e Basaglia, ela dissera alto e bom som: o louco deu
férias à razão mas não à sua humanidade. Pouca gente escutou. Foi preciso que
68 passasse e que os anos negros viessem para que os ouvidos surdos pudessem
ouvir a nova música.
Não
sem motivo. Ouvir este apelo significa, antes como agora, enfrentar o asilo e
exigir do terapeuta uma outra postura. Do terapeuta se quer mais que as
estereotipias nosográficas, as contenções físicas, os quilos de psicofármacos
ou as teorias requentadas. Medicar, escutar ou responder a alguém que sofre é
diferente de uniformizar desejos e mutilar consciências. A função do hospital é
criar atmosferas de convívio onde possam emergir o imprevisível, a diferença, a
criatividade e a história de cada um. Só assim, conflitos petrificados em
delírios, autismo ou agitações podem ser transformados. Não há muito o que
discutir: é isto ou a barbárie.
E
dra. Nise não parou aí. A psiquiatria asilar não cai do céu. Ela nasce e vegeta
à sombra de uma sociedade alienada e alienante. Todas as cores da opressão, da
discriminação, do preconceito e da super-exploração política, social ou
econômica aparecem no asilo de modo frio, sem perdão. O hospício é o reino dos
homens tristes. Nele, loucos e terapeutas partilham um destino semelhante.
Isolados do trabalho, da invenção, dos feitos e ações criadoras, erram como
robôs tontos. Quem conhece, sabe o gosto. Ali tudo fede a violência, promiscuidade,
sordidez e agonia. Dra. Nise com suas imagens e seu trabalho desafiou esta
triste psiquiatria. Mostrou que a arrogância de saberes fúteis é um esquife de
luxo onde muitos enterram as vidas ou as esperanças. O asilo é uma usina, como
aquelas de João Cabral: engole gente e cospe bagaço.
O
que dizer de dra. Nise? Ouçam duas vezes o que ela disse: prestem bem atenção
àquilo que ela quis mostrar. E se depois disso insistirem em fazer de dra. Nise
uma caçadora de talentos plásticos escondidos, façam-no por sua própria conta e
risco. Mas sem esquecer: beleza para ela nunca foi droga contra fome e sede de
justiça.
Aos
82 anos, completados em 15 de fevereiro, Nise da Silveira é uma pessoa
desconcertante. Frágil na cadeira de rodas a que está presa desde novembro,
quando sofreu uma queda, manifesta uma firmeza que torna capaz de dirigir a
organização de uma exposição itinerante de pintores esquizofrênicos; operada
quatro vezes de glaucoma, seu olhar vai ao fundo do interlocutor, sem
complacência, atravessando as grossas lentes. Seu trabalho pioneiro de pesquisa
tratamento da doença mental através do que costuma ser designado por
terapêutica ocupacional ou arteterapia - termos aos quais ela prefere emoção de
lidar, definição cunhada por um antigo freqüentador do ateliê de artes
aplicadas — é conhecido no mundo inteiro e recebeu elogios de Carl Gustav Jung
(1875-1961) há 30 anos. Cada vez mais pessoas vão ver os quadros pintados no
complexo psiquiátrico do Engenho de Dentro, e o público faz fila para o
filme Imagens do inconsciente, do cineasta Leon
Hirszman, com roteiro de Nise. No entanto, a psiquiatria continua nas garras
das multinacionais farmacêuticas e nos hospitais os internos são mantidos em
camisa-de-força química, como ela assinala, indignada.
No
apartamento em que mora há mais de 20 anos, no bairro carioca do Flamengo, um
quadro de Di Cavalcanti (Meu único tesouro) retrata
uma mulher e um gato. Outros gatos dormem sobre os móveis ou passeiam pela
casa. Os livros cobrem as paredes e dra. Nise continua trabalhando. Prepara
agora com seu assistente, Luiz Carlos Mello, novos audiovisuais sobre os casos
estudados no Museu do Inconsciente, instituição que fundou no Centro
Psiquiátrico Pedro II, no Engenho de Dentro, em 1952. Ali passou a ser reunida
e pesquisada a produção da seção terapêutica ocupacional, sob sua direção de
1946 a 1974, e que já então se tornara volumosa. Hoje o Museu possui um acervo
de 250 mil obras, desde as garatujas do interno mais anônimo até as telas e
desenhos de Emygdio de Barros, Raphael Domingues e Fernando Diniz, conhecidos
pela qualidade de suas obras.
Quando,
aos 16 anos, e da Silveira foi admitida na Faculdade de Medicina da Bahia como
a única mulher da turma, seu pai, professor de matemática, deu-lhe alguns
conselhos "Quem se mete a lobo, que lhe vista a pele", disse. E
também: "Sempre se solidarize com os mais fracos e nunca aceite privilégio
por ser mulher". Data daí, talvez, sua opção pelos marginais: o trabalho
que apresentou ao concluir o curso, aos 21 anos, foi sobre a criminalidade
entre as mulheres baianas. Ela estudou casos de assassinas, ladras e
prostitutas no presídio de Salvador. Logo começou trabalhar em psiquiatria,
mais interessada na pesquisa de outras formas de tratamento do que na terapia
pelos métodos da época, ancorados no choque de insulina, no eletrochoque e na
lobotomia. Já pressentia, então, que a esquizofrenia transbordava do modelo
médico:
—
Eu queria saber o que vai por dentro do indivíduo, queria entrar na cuca do
doente tanto quanto pudesse, conhecer a psique, este pedaço da natureza que se
chama psique. Fazer uma exploração, como quem faz uma exploração da floresta
amazônica. Para mim o inconsciente é isso, uma floresta amazônica. Para os
lacanianos, é uma pocinha d'água. Nise não gosta de falar de si nem de sua
vida. "O que tinha a dizer está nos meus livros e na produção dos
internos", afirma. Não parece ser, porém, a pessoinha tímida que
Graciliano Ramos descreveu, após encontrá-la pela primeira vez, na prisão, em
1936. Várias vezes Graciliano fala de Nise, alagoana como ele, em Memórias do cárcere. À primeira impressão sucedeu
o espanto, ao descobrir outros aspectos de sua personalidade quando a teve como
companheira de cela: Nise falava como se nos conhecêssemos de velha data;
nenhum sinal do acanhamento que nos tolhera à minha entrada no Pavilhão.
Tinham-me dito dela, anos atrás: mulher de grande inteligência e grande
caráter. "Renovei a frase, mencionando o autor".
—
Lamento isso, murmurou Nise com ar arrepiado.
—
Por quê?
—
Porque tenho dessa criatura uma opinião muito diferente. Não acho nenhum
caráter nela.
A
doença e a modéstia esgarçaram-se, num instante a severa disposição alterou a
fisionomia suave.
—
Puxa! Não a imaginava capaz de tanta aspereza.
—
Que hei de fazer? Era preferível eu desconhecer o elogio. Enfim, esses juízos
fáceis não podem transformar-me.
Examinei
a figurinha combalida, magra; o desejo de afastar o louvor inoportuno
sufocava-a; os dedos finos tremiam.
A
prisão no Estado Novo interrompeu por 16 meses o processo de aprendizado, mas
ao mesmo tempo dotou-a de novos instrumentos para avaliar a loucura e a
normalidade. Conta-se que ela foi denunciada como comunista por uma enfermeira
do Hospital Pinei, onde trabalhou seis anos como médica residente. E que a
enfermeira, por causa disso, foi surrada por uma doente. Na verdade, nunca foi
uma militante ativa: tinha apenas contatos com membros do Partido Comunista
Brasileiro (então Partido Comunista do Brasil, na ilegalidade).
Na
prisão, a presença da psiquiatra é descrita, ainda por Graciliano Ramos, como
benfazeja: "As conversas boas de Nise afugentavam a lembrança ruim. A
pobre moça esquecia os próprios males e ocupava-se dos meus". Foi ela quem
o ensinou a jogar crapaud para distrair-se do
cotidiano terrível, e quem o introduziu ao "mundo do Caralâmpio", o
reino da imaginação, refúgio para a falta total de privacidade. Essa história,
em que Graciliano mais tarde se inspirou para escrever o livro infantil A terra dos meninos pelados, vem da infância de
Nise. Caralâmpio era o sobrenome de um aluno de seu pai, por quem ela uma vez
pediu: "Pai, não o reprove, gosto do nome". O pedido não pôde ser
atendido: o menino estava totalmente por fora da matemática. Mas desde então
seu nome ficou na família como sinônimo de indivíduo alheio a realidade, o tipo
que vive nas nuvens.
O
livro conta a história de um menino com um olho preto e outro azul que é
submetido a picadas terríveis no couro cabeludo que deixam seu crânio liso
(metáfora para as humilhações sofridas na prisão). Passa então a olhar o mundo
de forma diferente e empreende uma fantástica viagem a lugares oníricos,
acompanhado de seres inocentes, inofensivos. A principal personagem feminina é
a princesa Caralâmpia, que se enfeita com colares de bichinhos vivos, um broche
de vaga-lume e pulseira de cobra coral. Uma personagem intimamente ligada a
Nise da Silveira.
Em
liberdade, Nise consegue, após oito anos desempregada, a reintegração ao
serviço público, mas põe em dúvida os métodos violentos de tratamento aplicados
ao doente mental. Não se adapta ao trabalho na enfermaria. Então, em 1946,
atendendo à sua sugestão, o diretor do centro psiquiátrico do Engenho de Dentro
incumbe-a de fundar ali a Seção de Terapêutica Ocupacional. No início o ateliê
de pintura foi apenas um dos setores de atividade. A terapêutica ocupacional
era encarada pela psiquiatria como uma forma de manter os doentes ocupados ou
fazê-los trabalhar para a economia hospitalar. Logo, porém, Nise se surpreendeu
ao observar que os freqüentadores do ateliê, todos esquizofrênicos,
manifestavam intensa exaltação criadora, que resultava na produção de pinturas
em número incrivelmente abundante, em contraste com a atividade reduzida de seu
dia-a-dia, e cada um deles uma unidade temática muito pessoal.
Na
primeira exposição, em 1947, no Ministério da Educação, a alta qualidade de
alguns trabalhos chamou a atenção de críticos de arte, como Mário Pedrosa, que
escreveu no Correio da Manhã: "Uma
das funções mais poderosas da arte - descoberta da psicologia moderna - é a
revelação do inconsciente, e este é tão misterioso no normal como no chamado
anormal. As imagens do inconsciente são apenas uma linguagem simbólica que o
psiquiatra tem por dever decifrar. Mas ninguém impede que essas imagens e
sinais sejam, além do mais, harmoniosas, sedutoras, dramáticas, vivas ou belas,
enfim constituindo em si obras de arte".
Esse
reconhecimento valeu para dra. Nise como um atestado da capacidade criadora de
doentes tidos como crônicos, um desmentido à opinião da psiquiatria
tradicional, segundo a qual a esquizofrenia é um processo que acarreta a ruína
da inteligência e o embotamento da afetividade. Serviu também como estímulo à
sua busca, como autodidata, de embasamento teórico para fazer reconhecer a
terapêutica ocupacional por si só, quando bem conduzida, como um método de
tratamento legítimo, e não apenas uma prática auxiliar subalterna. Ainda hoje
Nise se irrita ao lembrar que diziam que ela pretendia revelar artistas:
—
Se catarem com uma lente a expressão arteterapia no meu trabalho, não vão
encontrar. Sempre me insurgi contra ela. Por meio da pintura quis tornar, no
processo psicótico, o invisível visível. O que me cabia era estudar os
problemas científicos levantados por essas criações.
Ela
observa que os críticos de arte foram mais atentos ao fenômeno da produção
plástica dos esquizofrênicos do que os psiquiatras brasileiros:
—
No mundo inteiro, até hoje a maioria deles se mantém irredutível, repetindo os
velhos chavões arte psicótica, arte psicopatológica, insistindo em procurar
nessas pinturas somente reflexos de sintomas de ruína psíquica.
E
acrescenta:
—
Aliás, é preciso desfazer essa separação entre ciência e arte. Afinal o que há
de mais artístico do que a física atômica? E um dos maiores cientistas que a
humanidade conheceu foi Leonardo da Vinci, um artista.
Dra.
Nise encontrou o embasamento teórico que procurava em Jung, quem primeiro
afirmara, em 1907, que a esquizofrenia (ou demência precoce, como era chamada)
não era explicada pela medicina organicista e que seus sintomas podiam ser
compreendidos psicologicamente. Pesquisando os mecanismos de associação de
idéias em vários tipos de esquizofrenia, Bleuler, tendo Jung como assistente,
verificou que todos os indivíduos apresentavam um mesmo distúrbio em comum, ao
qual ele denominou dissociação psíquica. Mas, durante a aplicação dos testes,
Jung observou as reações dos doentes, que haviam sido desprezadas pelos
psicólogos anteriores. E aplicou as idéias de Freud sobre interpretação dos
sonhos, atos falhos e sintomas neuróticos à decifração dos delírios
aparentemente desconexos dos esquizofrênicos. Levantou então a hipótese de que,
apesar de incongruentes, gestos e delírios não eram vazios de sentido.
—
Shakespeare já sabia que os delírios têm sentido. Polonius, referindo-se aos
desvairados discursos de Hamlet, diz: Desvario sim, mas tem seu método. Mas,
naturalmente, os homens de ciência nunca escutam os poetas - observa Nise.
Outra
chave para o mundo fragmentado do esquizofrênico Nise da Silveira encontrou em
Artaud, poeta francês que esteve internado durante nove anos, rotulado como
esquizofrênico e submetido aos tratamentos tradicionais. Ele escrevera:
"O
eletrochoque me desespera. Apaga minha memória, entorpece meu pensamento e meu
coração, faz de mim um ausente que se sabe e se vê durante semanas na busca do
seu ser, como um morto que caminha ao lado de um vivo que não é mais ele, que
exige a sua volta e no qual ele não pode mais entrar. Na última série eu fiquei
durante os meses de agosto e setembro na impossibilidade absoluta de trabalhar,
de pensar e de me sentir ser".
Sobretudo
uma frase de Artaud, escrita a propósito de um pintor surrealista,
impressionou-a vivamente: "O ser tem estados inumeráveis e cada vez mais
perigosos". Ela diz que pensou: "É isso!", sentindo que o poeta
se referia aos acontecimentos terríveis que se passam na profundeza da psique,
sensações de desmembramento do corpo, de caos, de distorção do espaço, de
metamorfoses.
Para
Nise, a esquizofrenia não é propriamente uma doença: é antes a manifestação
destes "estados do ser" desencadeados por situações extremas, que
desagregam o ego. Na verdade, dever-se-ia dizer que uma pessoa "está
esquizofrênica", e não que "é esquizofrênica". A volta à
realidade é difícil, porque o indivíduo logo é submetido a choques elétricos,
dopado, trancafiado num lugar inadequado, além de marginalizado por uma
sociedade que é ao mesmo tempo co-causadora do processo de alienação.
No
esquizofrênico a sociedade vê sua sombra no espelho, e por temer essa sombra é
que quer isolá-lo. Nem sempre foi assim: na Alemanha do século XVI, Jacob
Boehme, um sapateiro, teve um êxtase místico ao ver o sol refletido num prato
de estanho polido. Depois dessa e de outras experiências semelhantes, passou a
escrever suas visões, mas não deixou de remendar sapatos. Era considerado por
todos como um homem sábio e religioso. Diferente foi a sorte de Carlos Pertuis,
outro sapateiro, que viveu muito mais próximo de nós. Em 1939, aos 29 anos de
idade, Carlos foi ofuscado por uma visão cósmica quando um raio de sol cintilou
no pequeno espelho de seu quarto. Deslumbrado, chamou a família para ver o
planetário de Deus. Foi internado imediatamente. Logo que teve oportunidade
para pintar, em 1947, reproduziu como podia a visão fatídica.
Esta
e outras vivências estão representadas nas telas do ateliê do Engenho de
Dentro. Mas, de modo geral, os psiquiatras usam os óculos do patológico e vêem
apenas como doença a experiência que desintegrou o ego de Carlos: "é a
burrice exemplar da psiquiatria", nas palavras de Nise.
Otávio,
outro "crônico" do Engenho de Dentro, disse uma vez: "A
esquizofrenia consiste numa doença em que o coração fica sofrendo mais do que
os outros órgãos. Então ele fica maior e estoura". Para Jung, a gênese
psicológica da esquizofrenia se encontra em avassaladoras cargas afetivas
desencadeadas por situações extremas -tensão, ansiedade, humilhação, relações
interpessoais destituídas de amor, frustrantes ou opressivas — que perturbam as
funções do ego e desmontam a hierarquia psíquica. A unidade do ego, que nas
neuroses mantém-se pelo menos parcialmente, se estilhaça. O ego em pedaços não
consegue fazer face a realidade externa, e a personalidade consciente, centrada
no ego, sucumbe ao assalto das forças do inconsciente.
—
Jung já dizia que nós vivemos entre dois mundos: o mundo externo, percebido
pelos sentidos, e o mundo interno, inconsciente, reino de imagens nem sempre
verbalizáveis. Acossado no mundo externo, o indivíduo encontra como saída a
porta da loucura, que se abre para o mundo intrapsíquico. A volta é difícil
porque seu mundo interno não é aceito pela sociedade, aí incluindo a psiquiatria.
Então, a tarefa de terapêutica ocupacional é oferecer atividades que permitam a
expressão do não verbalizável, é desenvolver as sementes criativas que se
mantêm em todo o indivíduo, porque o impulso a renascer é espantosamente
resistente no ser humano.
Para
isso, a terapêutica ocupacional deve colocar ao alcance do indivíduo as
manifestações que através de milênios a humanidade usou para exprimir-se:
dança, representações mímicas, pintura, modelagem, música. Quando há alto grau
de crispação do consciente, só as mãos são capazes de fantasia. O barro, as
cores, as tintas transmitem a emoção de lidar, de que falou o antigo paciente.
Neste caminho, dra. Nise encontrou o pensamento do filósofo francês Gaston
Bachelard (1884-1962), ainda hoje uma de suas leituras prediletas.
Uma
das primeiras peculiaridades observadas por Nise ao começar seu trabalho foi
que os internos pintavam com freqüência, sobretudo nos períodos regressivos,
formas circulares semelhantes a mandalas, imagens usadas nas religiões
orientais como instrumentos para a concentração. Desde a pré-história o círculo
é um símbolo carregado de sentido para o ser humano, um símbolo mágico. Assim
foi visto entre os egípcios, gregos, celtas e outros povos:
—
Dois mil anos de cristianismo representam apenas a superfície. Nos profundos
labirintos da psique vivem ainda os deuses pagãos.
Depois
de reunir centenas desses desenhos, ela enviou, em 1954, algumas fotografias a
Jung, buscando uma interpretação. A resposta não demorou: os desenhos indicavam
uma tendência do inconsciente a compensar o caos interior procurando o ponto
central (o self), numa tentativa de
reconstrução da personalidade cindida. Na psicologia junguiana, o self, simbolizado pela mandala, "é o
princípio e arquétipo da orientação e do sentido, e nisso consiste a sua função
curativa".
Dra.
Nise conta que se viu diante de uma abertura nova para a compreensão dos
conteúdos do inconsciente, manifestados através das pinturas. Em 1957 ela
estava na Suíça e teve uma entrevista inesquecível com Jung. Era um homem
impressionante: "olhos atentos, poucas palavras". O psiquiatra suíço
aconselhou-a a estudar mitologia para compreender melhor os delírios dos
doentes e as suas pinturas, que teve oportunidade de ver expostos em Zurique,
durante um congresso de psiquiatria, na mesma ocasião. Ele lhe disse também:
"Sua exposição me intrigou muito". Dra. Nise conta que ficou de
orelha em pé, esperando o que vinha em seguida. E Jung comentou: "Seu
serviço deve ser um lugar onde as pessoas não têm medo do inconsciente".
—
Considerei isso um galanteio de Jung - diz Nise.
Ela
insiste, porém, em afirmar que não teve formação junguiana e que para ela Jung
foi um instrumento de trabalho. E reclama:
—
As pessoas pensam que vão encontrar Jung no meu colo, que sou a mãe de Jung! O
que fiz foi empreender a busca do que se passa na cuca do esquizofrênico.
Através das pinturas procurei abrir brechas, fixar fragmentos desse enigmático
mundo interno, obter um auto-retrato.
—
De fato o clima que reinava no ateliê era de total liberdade, um contato de
igual para igual, sem distinção, entre médicos, doentes e monitores. Era um
lugar amplo, agradável, com janelas sempre abertas para as árvores. Muitas
vezes os internos o escolheram espontaneamente como motivo para as pinturas, o
que mostra como tinha significação para eles.
Além
do ambiente acolhedor que Jung intuíra a partir dos trabalhos que viu, dra.
Nise ressalta a importância de um fato catalisador, que seja para o doente um
ponto de referência na realidade. Os monitores, escolhidos a dedo por Nise por
sua paciência e calor humano, desempenhavam muitas vezes este papel. Mas como
na esquizofrenia a comunicação verbal é freqüentemente difícil, outro tipo de
auxiliar foi introduzido no Engenho de Dentro: o co-terapeuta não humano. Ela
explica:
—
O cão é um animal ideal para esse papel. Dá afeto incondicional sem pedir nada
em troca, não provoca frustrações, traz alegria ao ambiente do hospital.
—
Um dia, apareceu por lá uma cachorra que os funcionários estavam sempre
enxotando. Então eu botei nela o nome de Nise e disse para eles: agora, vocês
vão ter que enxotar a chefe do serviço: "Passa fora, Nise..."
—
Já os gatos são esquivos, têm uma maneira de querer bem talvez mais semelhante
à dos esquizofrênicos. São os meus mestres e grandes companheiros.
Os
gatos são os animais preferidos de dra. Nise. A longa permanência na cadeira de
rodas acarreta-lhe dificuldades respiratórias, que trata com ioga e imitando a
respiração dos seus felinos.
A
despersonalização infligida ao interno no hospital psiquiátrico é outra mazela
que dra. Nise denuncia com ênfase. "Os prontuários - diz - são de uma
pobreza total". Exemplos: Adelina foi internada após uma crise em que
estrangulou a gata da casa; Carlos, em seguida à experiência mística em que viu
o "planetário de Deus"; Fernando Diniz, apaixonado pela filha de uma
freguesa da mãe, modesta costureira, enlouqueceu quando soube que a moça se
casara. Nenhum desses dados constava dos seus prontuários, ninguém se
preocupara em obter informações além das estritamente burocráticas.
Para
vencer este isolamento, a Seção de Terapêutica Ocupacional passou a promover
bailes para os internos. As críticas não tardaram a ser ouvidas: era a
"gafieira da Nise", diziam. Tratava-se de criar um clima mais humano,
de convívio, "de enturmamento", como dizia Fernando. Práticas
esportivas eram também estimuladas, como jogos de vôlei no terreno que hoje
serve de estacionamento para o hospital:
-
Olho muito os olhos e as mãos do doente. Nunca vi mãos tão maravilhosas como as
de Rafael. Ele fazia bico de pena e tinha gestos rebuscados. Ficava às vezes
parado, com a pena no ar. A gente chegava perto e ele dava pequenos traços
delicados em nossa roupa. Eu tomava cuidado, mas não reclamava.
Apoiando-se
no estudo da mitologia e da psicologia junguiana, dra. Nise compreendeu as pinturas
como expressão de respostas arcaicas, que habitam o íntimo de todos os seres
humanos em todas as épocas e que afloram diante de situações extremas. Era
preciso, então, encontrar um fio para decifrá-las, acompanhando as seqüências
dos trabalhos de cada autor com paciência, fazendo "paralelos
mitológicos". E assim viu ressurgirem no Engenho de Dentro representações
do mito da união dos opostos, do Sol, de Dafne, de Dionísio...
—
Não se trata de um passe de mágica: a tarefa do psiquiatra é estabelecer conexões
entre as imagens que emergem do inconsciente e a situação emocional que o
indivíduo vive. É uma metodologia praticada de cócoras: horas e horas
examinando séries de desenhos espalhados pelo chão. Quanto ao próprio
indivíduo, à medida que puser para fora esse material arcaico, porém sadio, ele
despotencializa as figuras ameaçadoras do seu inconsciente.
As
narrativas míticas falam de heróis que superam perigos e encontraram renovação.
Herói, diz Jung, é o que conquista o dragão, não o que é vencido. Mas ambos
defrontaram com o mesmo dragão.
—
Constância, paciência e um ambiente livre de qualquer coação são essenciais. No
tratamento, o mais importante é um real interesse em penetrar no mundo
hermético do esquizofrênico, tentar entender o que o levou ao naufrágio. Ele é
sensível a isso. Observar conversas, falar pouco, concordar com tudo, recolher
qualquer garatuja. O essencial é o afeto incondicional, porque é o que ele
quer, porque ele se sente sempre pouco amado. No fundo, a gente está tratando
de nós mesmos para talvez, a partir daí, tentar curar o doente.
Nise
diz ter adotado "a regra de ouro de Darwin", que tomava nota
cuidadosamente das opiniões contrárias para não esquecer as contradições de
suas teorias e explorá-las. Ela verificou que os acontecimentos intrapsíquicos
não progridem de forma linear, estão sujeitos a numerosas regressões, que é
muito lento o processo de retorno à realidade:
—
Mas é preciso não esquecer que um percurso de ida e volta a esferas
subterrâneas muito profundas foi palmilhado. E em condições muito
desfavoráveis, pois o hospital não favorece essa viagem. Pelo contrário,
favorece as regressões.
E
faz sua mais violenta crítica à instituição psiquiátrica:
—
O que oferece em troca a psiquiatria tradicional? Doses brutais de psicotrópicos
que sufocam as forças defensivas do inconsciente e que, elas sim, causam graves
efeitos ao organismo. Estão aí as reinternações a comprovar isso. A situação de
1986 é a mesma de muitos anos atrás: para 28 internações, 16 são reinternações.
Nise
cita a Carta aos médicos chefes dos asilos de loucos, de
Artaud: "Para quantos dentre vós o sonho do esquizofrênico, as imagens das
quais ele é presa são algo diferente de uma salada de palavras? Possais
lembrar-vos amanhã, na hora da visita, quando tentardes, sem vocabulário
adequado, conversar com estes homens, que não tendes outra vantagem a não ser a
da força".
—
Esta carta é como um chicote na face dos psiquiatras. Nenhum escapa, por ação
ou omissão. Eu também não escapo: não protestei suficientemente.
-
A comunidade médica é co-responsável por esse estado de coisas. As pessoas têm
tendência a atribuir a culpa ao Estado. Mas o Estado não está convivendo
diariamente com essas pessoas sensibilíssimas. O problema é que os médicos
acham que sabem tudo. Perderam a capacidade de se espantar, de buscar o
desconhecido, não ficam mais embatucados. A universidade emburrece (...) A
psiquiatria já foi melhor do que é hoje. Quando José Clemente Pereira, ministro
do Império, criou o antigo hospital da Praia Vermelha, em meados do século
passado, mandou instrumentos de música para os internos, dizendo: "para
que eles se distraiam e, talvez, se curem". O diretor do hospital foi
mandado estagiar em Paris com Pinel e trouxe enfermeiras para trabalhar.
Mesmo
assim, a cura da esquizofrenia é uma questão ambígua. Muitos já acusaram dra.
Nise de não se preocupar com isso. Ela responde que acredita sim, mas dentro de
certos limites:
-
Quem passou por experiências radicais, como a loucura, a prisão, a tortura,
nunca volta mais o mesmo. Os valores se modificam. Um interno me perguntou:
"Doutora, a senhora acha que me curo"? Eu respondi: "Acho sim,
mas nunca voltará a ser um burocrata". Outro, um operário de construção
que recebera alta, começou a aparecer de novo no ateliê. Perguntei: "O que
você está fazendo aqui?" Disse que tinha começado a sentir umas coisas
esquisitas e resolvera aproveitar as horas de folga para pintar. Compreendi que
não tinha agüentado as tarefas monótonas, repetitivas. Uma pessoa muito curada
é uma pessoa chata.
terça-feira, 18 de março de 2014
Como se fabricam crianças loucas
18/3/2014 Como sefabricam crianças loucas | Opinião | Edição Brasil no EL PAÍS
http://brasil.elpais.com/brasil/2014/03/17/opinion/1395072236_094434.html 1/7
OPINIÃO
ELIANE BRUM 17 MAR 2014 - 13:03 BRT
A “menina louca”
tinha indagado
sobre a estrutura
do Estado e da
sociedade que a
obrigava a dar o
primeiro passo
COLUNA
Como se fabricam crianças loucas
Os manicômios não são passado, são presente. Uma pesquisa realizada no hospital psiquiátrico
Pinel, em São Paulo, mostra que, mesmo depois das novas diretrizes da política de saúde mental no
Brasil, crianças e adolescentes continuaram a ser trancados por longos períodos, muitas vezes sem
diagnóstico que justificasse a internação, a mando da Justiça. Conheça a história de Raquel: 1807
dias de confinamento. E de José: 1271 dias de segregação. Ambos tiveram sua loucura fabricada
na primeira década deste século
Arquivado em: Opinião Psicologia clínica Crianças Psicologia Doenças mentais Hospitais Infância Assistência sanitária Especialidades médicas Previdência
Problemas sociais Doenças Medicina Sociedade Ciência Saúde
Em uma noite de novembro de 2007, a psicóloga Flávia Blikstein escutou de uma menina duas
perguntas. E descobriu que não tinha respostas. Flávia trabalhava num Centro de Atenção
Psicossocial (CAPS) infantil, em São Paulo, e encontrava-se na ambulância para levar a garota
para sua primeira internação psiquiátrica. Maria, como aqui será chamada, tinha 14 anos. Era
negra, alta e magra. Falava pouco, frases curtas. Gostava de brincar de boneca e de desenhar.
Às vezes pintava as unhas, arrumava o cabelo, anunciando a adolescência. Maria se molhava o
tempo todo, em pequenos rituais. Abria a torneira, fazia uma conchinha com as mãos e
molhava os pés, as pernas, os braços. Fazia isso em qualquer lugar, causando vergonha à
mãe. Talvez Maria estivesse esculpindo com a água os limites do próprio corpo. Quando fez a
primeira pergunta à Flávia, ela ainda tinha as pontas dos dedos úmidas, e o seu olhar também
era molhado:
- Por que eu vou ficar aqui?
Flávia descobriu que não tinha resposta.
Maria fez então a segunda pergunta:
- Quem tá aí? Quem vai dormir no quarto comigo?
Flávia descobriu que não tinha resposta também para essa. Não tinha resposta porque, ao
contrário do que costuma acontecer quando crianças e adolescentes nos mostram a face do
abismo, ela tinha escutado as perguntas. Escutado mesmo. A “menina louca” tinha indagado
sobre a estrutura do Estado e da sociedade que a obrigava a dar o primeiro passo para dentro
de uma instituição psiquiátrica. Talvez Maria intuísse que esse passo poderia ser longo. Talvez
Maria adivinhasse que os dentes do sistema estavam à sua espera, logo ali.
Flávia abraçou Maria. E pediu desculpas por não saber responder. Maria entrou, carregando
olhos molhados e pontos de interrogação.
O que Maria perguntou à Flávia, perguntou a todos nós: por que, no
século 21, crianças e adolescentes brasileiros, a maioria filhos de
famílias pobres, continuam a ter suas vidas mastigadas num hospital
psiquiátrico. A “criança louca” fez aos normais a pergunta mais lúcida:
por que a condenavam a uma existência de manicômio. A habitar um
mundo de dor, vagando entre paredes, desvestindo a si mesma para
vestir um uniforme, sem direito ao desejo. Por que lhe negavam a
humanidade tão cedo.
Flávia não pôde esquecer as perguntas, menos ainda a sua falta para dentro de
uma instituição
psiquiátrica
Flávia sabia que aquilo que
se costuma chamar de
arquivo morto era bem vivo.
Então, botou-o para falar.
Analisou 451 casos,
correspondentes a 611
internações ocorridas entre
janeiro de 2005 e dezembro
de 2009
respostas. Dedicou-se a buscá-las. Encontrou-as no arquivo do
Núcleo da Infância e da Adolescência (NIA) do Centro de Atenção
Integrada em Saúde Mental (CAISM) Philippe Pinel. O Pinel é uma
das instituições de referência para internação de crianças e
adolescentes com problemas mentais no estado de São Paulo.
Flávia sabia que aquilo que se costuma chamar de arquivo morto era bem vivo. Então, botou-o
para falar. Fechou-se na pequena sala bordada de estantes durante todos os sábados de um
ano inteiro. Analisou 451 casos, correspondentes a 611 internações ocorridas entre janeiro de
2005 e dezembro de 2009. Destes, 79% das crianças e adolescentes haviam sido internados
apenas uma vez. Os 21% restantes tiveram de duas a sete reinternações. Alguns casos, que
continuaram a voltar ao Pinel, ela acompanhou também nos anos de 2010 e 2011. Flávia
queria saber qual era o percurso que levava crianças e adolescentes ao hospital psiquiátrico
como primeira providência – e não como exceção pontual e por tempo determinado.
O arquivo do Pinel ficava logo abaixo da enfermaria das crianças e adolescentes. Enquanto
pesquisava, Flávia podia ouvir os gritos. Percebeu, porém, que mais do que gritos havia um
silêncio longo. Um silêncio, nas suas palavras, “estranho e profundo, um silêncio que não
imaginamos num lugar cheio de crianças e adolescentes”. Dentro do arquivo, não. Os
prontuários contavam histórias. Ainda que a voz de meninos e meninas ressoasse mais nas
ausências, nas entrelinhas, os prontuários diziam de infâncias aniquiladas numa vida de
manicômio. E mostravam por que caminhos a fabricação de crianças loucas é uma verdade
profunda do Brasil. Flávia chamava o arquivo de “sala das almas”. E as almas falavam.
Duas crianças, que se transformaram em adolescentes no hospital psiquiátrico, contaram
histórias que poderiam ilustrar livros escabrosos sobre os manicômios do passado, mas que
se passaram na primeira década desse século. Aqui, elas serão chamadas de José e de
Raquel. José permaneceu confinado por 1271 dias – ou três anos e cinco meses. Raquel, por
1807 dias. Ficou trancada dos 11 aos 16 anos – e de lá foi transferida para outra instituição
psiquiátrica. José e Raquel estavam segregados no Pinel, a mando da Justiça, sob reiterados
protestos da equipe técnica. Foram depositados como coisas no Pinel porque ainda é este o
destino dado a crianças como eles no Brasil.
Por quê?
É preciso prestar muita atenção às respostas que Flávia encontrou.
Sua escuta de três mil horas dentro do arquivo transformou-se numa
dissertação de mestrado em psicologia social na Pontifícia
Universidade Católica (PUC) de São Paulo. Somando-se a trabalhos
fundamentais de outros pesquisadores do tema, tanto em São Paulo
como em vários estados do Brasil, a investigação mostra por que os
manicômios persistem apesar das diretrizes da política de saúde
mental e do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). A Lei nº
10.216, de 2001, orientada pela reforma psiquiátrica, prioriza o
atendimento em rede, em serviços inseridos na comunidade, perto
da família, e determina que a internação só pode ocorrer depois de
esgotados todos os recursos extra-hospitalares. Não é o que
acontece em casos demais.
“Medievais”, “desumanos” e “criminosos”. Essas são algumas das palavras usadas para definir
os hospícios desde que a luta antimanicomial se intensificou a partir do final dos anos 1970 e
conquistou avanços significativos nesse século. A pesquisa mostra, porém, que mesmo
instituições e profissionais que tentam fazer diferente são seguidamente vencidos pelas
engrenagens e pela escassez de serviços públicos de base. Na prática, ainda hoje, é de
manicômio e de vida manicomial que se trata em uma parte significativa dos casos, uma
realidade só possível pelo descaso quase absoluto da sociedade com o destino dessas
crianças, em geral filhas de famílias pobres. Ao fazer o arquivo morto falar, Flávia constrói
respostas que precisam ser escutadas se quisermos, de fato, estancar o crime de fabricar
crianças loucas – e, muitas vezes, também o de conseguir enlouquecê-las.
Ela queria saber
qual era o
percurso que
levava crianças e
adolescentes ao
hospital
psiquiátrico como
primeira
providência – e
não como exceção
pontual e por
tempo
determinado
Raquel nasceu em 1994. A mãe estava presa por tráfico de drogas, não porque era chefe de
uma organização criminosa, mas porque vendia uma pequena quantidade para sustentar seu
próprio vício. Esse destino é comum nos presídios do país, é também gerador de órfãos de
mães vivas. Pobre demais para dar conta dela, a avó colocou Raquel num abrigo aos cinco
anos. A menina é de imediato descrita como “agressiva”. E, por esse motivo, é afastada das
outras crianças. Passa a morar com o que se chama de “mãe social”, isolada numa casa nos
fundos do abrigo. A escolha, como mostra Flávia, evidencia que, desde sempre, a resposta à
agressividade de Raquel é a exclusão. Obviamente, também não deu certo. De abrigo em
abrigo, Raquel virou aquela que “não dava certo” em abrigo nenhum.
Talvez valesse a pena perguntar se a agressividade, ao se olhar para o contexto e as
circunstâncias, não era o principal traço de sanidade de Raquel. Mas o direito à história é o
primeiro a ser arrancado das “crianças loucas”. Ela já tinha quase tantos rótulos quanto anos de
vida: filha de presidiária, abandonada, agressiva, não dá certo... Raquel só era vista por
estigmas e fragmentos.
Negra como Maria, ela foi internada pela primeira vez em 2005, aos
11 anos. Entrou no sistema por ordem da Justiça. Antes de
seguirmos o seu destino, é crucial entender as duas formas de
entrada nas instituições psiquiátricas, identificadas pela pesquisa.
Nelas se encontra uma das chaves para compreender a fabricação
das crianças loucas no Brasil atual. Assim como os caminhos pelos
quais é mantida viva a função histórica dos manicômios como lugar
de segregação daqueles que são decodificados como perigosos
para a ordem social, ainda que sejam apenas pobres e
abandonados.
Em pouco mais da metade dos casos – 55% – o pedido de
internação psiquiátrica foi feito por familiares e por diferentes
serviços da rede de saúde. Nos outros 45%, crianças e
adolescentes foram internados por ordem judicial. Estes são os dois
caminhos de entrada nos hospitais psiquiátricos. A pesquisa
mostrou, porém, algumas diferenças fundamentais para
compreender o problema: no período pesquisado, a Justiça internou
mais cedo, por mais tempo e mais vezes. A maioria dos casos era
de adolescentes, mas as crianças respondiam por 20% das internações por ordem judicial.
Pela via da rede de saúde, menos de 6% eram crianças. Por ordem judicial, o tempo médio de
internação era quase o dobro (55 dias contra 30). A Justiça também foi responsável por 92%
das internações com duração maior do que 150 dias. Entre os 14 casos que sofreram
internações de quatro a sete vezes, 12 tinham sido confinados por ordem judicial.
Entre eles, Raquel. Dos 11 aos 16 anos, ela foi internada seis vezes no Pinel. A queixa da
primeira vez: “Paciente institucionalizada há oito meses (nome de outro hospital), com
transtorno de comportamento, heteroagressiva (agressividade dirigida a terceiros), em
tratamento ambulatorial pouco resolutivo”. Depois de seis dias, o Pinel deu alta e a menina foi
encaminhada a um abrigo. Oito dias mais tarde, ela foi novamente internada por ordem judicial:
“Paciente portadora de transtorno de conduta grave. Uma vez no abrigo, voltou a ficar
agressiva. Crítica seriamente comprometida, ameaçadora”. Outros 19 dias de internação, e o
Pinel pediu à justiça que ela tivesse alta. Passada uma semana, o pedido foi atendido, e ela
voltou ao abrigo. Mais três dias e Raquel de novo foi internada no Pinel por ordem judicial: “Ao
retornar ao abrigo volta a apresentar quadro importante de liberação de agressividade e falta
de controle de impulsos”. Raquel ficou trancada no Pinel por 1004 dias.
Nessas três primeiras vezes, tornou-se evidente que a justiça internava e o hospital liberava,
porque não havia razão para manter Raquel confinada. Documentos anexados ao prontuário
mostram que a direção da instituição enviou diversos relatórios à justiça, tanto informando da
alta médica da paciente quanto pedindo encaminhamento a um abrigo e tratamento
ambulatorial. Num dos documentos, a direção afirma: “Nosso hospital está fazendo o papel “Medievais”, “desumanos” e
“criminosos”. Essas são
algumas das palavras usadas
para definir os hospícios
desde que a luta
antimanicomial se
intensificou a partir do final
dos anos 1970
No total, Raquel
ficou trancada no
Pinel cinco anos.
Sublinha-se: sem
necessidade. Sua
vida cabe em três
caixas do arquivo. Mas esse não foi o
fim de sua
trajetória
manicomial. Em
2010, aos 16 anos,
ela foi transferida
para outro hospital
psiquiátrico
Abrigo para esses adolescentes. Sabedores dessa ilegalidade pedimos com urgência uma
resolução para esse problema”. E, em outro ofício: “Atualmente a adolescente continua
residindo na enfermaria para tratamento de pacientes agudos, encontra-se longe da escola e
com enormes prejuízos psicológicos e sociais”.
A cada três meses, o Pinel mandou ofícios à justiça. Só foi atendido
depois de quase dois anos e nove meses. Mas a vida de Raquel fora
do hospital durou apenas uma semana. Mais uma vez ela foi
internada na instituição. O motivo: “Evolui com episódios recorrentes
de agressividade, fugas necessitando atendimento em unidades de
emergência. Há dois dias em acompanhamento no CAPS sem
aderência ao tratamento”. Depois de mais 413 dias de internação,
Raquel fugiu do hospital. Voltou espontaneamente dois dias mais
tarde. Para onde mais ela iria, já que o longo período de
confinamento esgarçou ainda mais os frágeis vínculos familiares e a
impediu de criar novos?
Raquel permaneceu internada mais 244 dias, antes de ser encaminhada a outro abrigo. Quinze
dias fora do hospital, e a justiça mandou-a de volta: “Jogou fora seus remédios, quebrou o
vidro da brinquedoteca, feriu-se, pegou o telefone para se enforcar e fugiu para uma cidade
vizinha dizendo que ia procurar seus avós”.
Na sexta vez, está registrado no prontuário: “A paciente verbaliza que a maior dificuldade que
enfrentou no retorno ao abrigo foi uma sensação de inadequação na convivência com
adolescentes sem problemas psiquiátricos; infelizmente, criou-se um vínculo inadequado
iatrogênico (provocado pela própria prática médica) de segurança com o ambiente de
internação, o que se configura como Hospitalismo”.
Em outras palavras. Raquel não sabia mais viver fora do hospital psiquiátrico, seus vínculos
estavam dentro da instituição. Se tinha a algum afeto, era ali. Era no hospital que ela sabia
como se comportar, identificava uma rotina, fazia amigos entre outras crianças e adolescentes
como ela ou realmente doentes. Considerava profissionais de saúde como parentes. E, mais
tarde se saberia, quebrava coisas e agredia pessoas quando era mandada para o abrigo
porque sabia que assim voltaria àquele que era o único lugar parecido com um lar que tivera na
vida.
Nessa época, a direção do Pinel mandou mais um ofício à justiça:
“Aproveito a oportunidade para dizer da indignação dessa equipe
técnica que, por diversas vezes, acionou o judiciário solicitando a
desinternação desses adolescentes que, na ocasião, precisavam
apenas de um abrigo para moradia e dar continuidade ao
atendimento ambulatorial, tendo assim seu direito constituído”.
No total, Raquel ficou trancada no Pinel cinco anos. Sublinha-se: sem
necessidade. Sua vida cabe em três caixas do arquivo. Mas esse
não foi o fim de sua trajetória manicomial. Em 2010, aos 16 anos, ela
foi transferida para outro hospital psiquiátrico.
O diagnóstico que sustentou a condenação de Raquel a uma vida
manicomial é bastante revelador: “transtorno de conduta”. Segundo a
Classificação Estatística Internacional de Doenças (CID), “os
transtornos de conduta são caracterizados por padrões persistentes
de conduta dissocial, agressiva ou desafiante. Tal comportamento
deve comportar grandes violações das expectativas sociais próprias
à idade da criança; deve haver mais do que as travessuras infantis ou
a rebeldia do adolescente e se trata de um padrão duradouro de
comportamento (seis meses ou mais)”. Essa “patologia”, assim
como outras que compõem a CID, é contestada por parte dos
psiquiatras, psicanalistas e psicólogos, assim como por profissionais de outros campos
Em sua investigação, Flávia
mostrou que o diagnóstico
de “transtorno de conduta”
tem sido usado de modo
generalizado – e quase
displicente – para justificar
internações em hospitais
psiquiátricos
conhecimento. Mas, ainda que se aceite que essa doença de fato existe, o tratamento
recomendado é inserção comunitária – e não asilamento.
Em sua investigação, Flávia mostrou que o diagnóstico de “transtorno de conduta” tem sido
usado de modo generalizado – e quase displicente – para justificar internações em hospitais
psiquiátricos. Tanto na internação pela via da rede de saúde como na internação por ordem
judicial, o principal diagnóstico é esquizofrenia. Mas o “transtorno de conduta” tem aumentado.
Numa comparação com uma pesquisa anterior, na qual Julia Hatakeyama Joia analisou os
prontuários do Pinel entre fevereiro de 2001 e agosto de 2005, Flávia constatou que os
chamados “transtornos do comportamento e transtornos emocionais” – dos quais “transtornos
de conduta” correspondem a 75% dos casos – cresceram como motivo de confinamento. Em
2002, eram causa de 5,26% das internações. Passaram para 7,14% em 2005. E alcançaram
15,2% das ocorrências em 2009. “Em muitos casos, é diagnosticado em crianças com
episódios de descontrole e agressividade, sem que exista uma análise sobre sua história e
contexto de vida”, afirma a psicóloga. Outro dado comparativo de extrema relevância é que,
entre 2001 e 2004, a proporção de internações no Pinel por ordem judicial era de 23% do
total. De 2005 a 2009 saltou para 45%.
O “transtorno de conduta” é bem mais recorrente na internação por
ordem judicial do que na internação pela via da rede de saúde. É o
diagnóstico de um quarto das internações com duração maior do que
150 dias e por mais de um terço dos casos de crianças e
adolescentes internados de quatro a sete vezes. É o rótulo de
Raquel – e também o de José. Meninos representam quase 80%
das crianças e adolescentes internados, um dado cujas razões
precisam ainda ser melhor compreendidas.
José tinha 10 anos quando deu o primeiro passo para dentro do
Pinel, por ordem judicial. Tinha passado, segundo o relatório da
instituição, por “maus tratos, negligências e privação afetiva”.
Apresentou “comportamentos desafiadores e transgressores, o que resultou em rejeição e
abandono familiar, principalmente de sua mãe”. A mãe decidiu entregá-lo para o pai, na Bahia.
No dia da viagem, José recusou-se a ir. Ele não queria se separar da mãe. Para não ser
obrigado a viajar, por duas vezes tentou se jogar diante dos carros, na rua. A “crise de
agitação” levou à sua primeira internação. A duração: 623 dias.
Quando teve alta, José foi encaminhado a um abrigo. Permaneceu apenas três dias antes de
ser internado novamente. Dessa vez, ficou trancado por 255 dias. José fugiu. Para onde? Para
a casa de mãe. Mais uma internação, por “agitação psicomotora com intensa
heteroagressividade, baixa tolerância à frustração, sem crítica, e risco de vida”. Dessa vez,
ficou 84 dias na instituição antes de fugir novamente. Para onde? Para a casa da mãe. Na
quarta e última internação, ele permaneceu 309 dias no Pinel. Foi então encaminhado para um
abrigo. De onde fugiu. Para a Bahia, em busca de um lugar e de um afeto.
No total, José ficou 1271 dias trancado no Pinel: três anos e cinco meses. Sobre José e
Raquel, a equipe técnica do hospital enviou um ofício à Justiça, em 2008: “(...) Estão em alta
médica, mas permanecem nesta enfermaria psiquiátrica para tratamento de pacientes com
transtornos mentais agudos, privadas de ter uma vida digna, por não terem retaguarda familiar
e não existirem vagas em abrigos”. Sobre esse destino, Flávia afirma: “As internações são
motivadas por uma combinação complexa, que resulta numa situação de vulnerabilidade. A
resposta da internação psiquiátrica, além de redutora de complexidade, é ela mesma
produtora de maior sofrimento. A internação por ordem judicial revela uma concepção sobre a
infância e a adolescência pautadas no medo e no perigo. Propõe uma resposta única a todas
as situações, sem considerar diferenças, singularidades e contextos. Reduz crianças e
adolescentes ao status de paciente psiquiátrico perigoso, produzindo sua cronificação”. É
assim que se fabricam crianças loucas.
Vale a pergunta: fugir pode ter sido um ato de sanidade de José, na tentativa de não ser
enlouquecido? De algum modo, apesar de tudo e de todos, ele parece acreditar que existe um
O desafio exposto
pela pesquisa é
também o de
completar a
reforma
psiquiátrica no
Brasil. Crianças e
adolescentes,
segundo a
legislação, devem
ser tratados dentro
da comunidade,
junto à família,
sem afastamento
da escola
lugar para ele, um lugar com afeto. José, Raquel e Maria nos mostram que não há desamparo
maior do que o de uma criança num manicômio. Ninguém está mais sozinho nesse mundo do
que José, Raquel e Maria. Expostos a uma sociedade que, além de não protegê-los, os
enlouquece. Eles fogem, como José, eles quebram tudo, como Raquel, eles fazem perguntas,
como Maria. Mas estão sozinhos. E cada um de seus atos de resistência é mais um carimbo
de sua suposta loucura num arquivo morto.
Ao analisar os prontuários, Flávia conseguiu identificar claramente as
diferenças entre a internação via rede de saúde e a internação por
ordem judicial. Essas são conclusões cruciais do trabalho, porque
apontam o que funciona e o que não funciona, apontam saídas. Na
rede de saúde, a maior parte dos encaminhamentos é feita pela
emergência de hospitais, o que não é o melhor percurso. Apenas 8%
são enviados para internação por Unidades Básicas de Saúde ou por
CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) infantil, que deveriam ser a
porta de entrada para crianças e adolescentes com sintomas de
doenças mentais. Esses dados demostram a falta desses serviços,
causando desamparo na população que necessita de assistência
pelo SUS. Em vez de começarem o tratamento pela rede básica,
inserida na comunidade, o iniciam pelo fim e por aquilo que é uma
exceção necessária num mínimo de casos: a internação. A hipótese
de Flávia é de que, se houvesse mais serviços comunitários de
saúde mental, como está previsto na legislação, é provável que a
necessidade de internação fosse bem menor. Em vez do hospital
psiquiátrico, uma rede articulada, com investimento maior em
equipes de saúde mental, na capacitação e implantação do
Programa de Saúde da Família e de centros de atenção
psicossocial. “A patologização das crianças em situação de
vulnerabilidade social evidencia a precariedade da rede de atenção e cuidado, e também a
insuficiente articulação entre as políticas públicas nos campos da educação, saúde, habitação
e lazer”, afirma.
A diferença é clara na análise dos dados. Nos casos encaminhados pelos Centros de Atenção
Psicossocial, a média de dias de internação é mais baixa do que pelos outros caminhos.
Quando crianças e adolescentes são cuidados pelos CAPS depois da alta, apenas 3% são
reinternados. “Isso mostra que os serviços comunitários funcionam, mas são em número
insuficiente”, afirma Flávia. “Nos pacientes encaminhados pela rede de saúde, o hospital
funciona como enfermaria de crise. A maioria é de adolescentes de 15 a 17 anos, em seu
primeiro surto psicótico, que são cuidados e liberados. Já na internação por via judicial, o
hospital funciona como instituição de asilamento.”
O desafio exposto pela pesquisa é também o de completar a reforma psiquiátrica no Brasil.
Crianças e adolescentes, segundo a legislação, devem ser tratados dentro da comunidade,
junto à família, sem afastamento da escola. A doença, se de fato existe, deve ser
compreendida como uma das várias características – e não como a verdade única sobre
aquela criança e adolescente. Mesmo a internação, se for necessária, deve ser entendida
como uma parte da história – e não como a história inteira. A internação é um momento, não
um destino.
Flávia permanecia das 10h até as 21h de cada sábado na sala das almas do Pinel. Numa noite,
estava tão mergulhada nos prontuários que se esqueceu da hora e se atrasou para sair. O
guarda do portão recusou-se a deixá-la ir. Eram as regras. Ele não estava ali para pensar sobre
elas, mas para cumpri-las. E Flávia soube o que era estar entre muros – e não ser escutada.
Depois de um tempo que pareceu largo demais, Flávia conseguiu provar que era uma
psicóloga, fazendo um trabalho de pós-graduação para a PUC. Acredita que o fato de ser
branca, loira e de olhos azuis possa ter ajudado na sua “soltura”. Mas, ao abrir o portão, o
segurança alertou: “Na próxima vez, fica”. Por um momento, trêmula, Flávia teve uma tênue
aproximação do que sentiram Raquel, José e Maria, apenas três entre as centenas de
“crianças loucas” fabricadas nesse século.
Ao final de sua estadia no arquivo morto que ela descobriu ser vivo, Flávia finalmente tinha as
respostas para Maria.
1) Por que eu vou ficar aqui?
- Porque as instituições que compõem a rede de atendimento à criança e ao adolescente
trabalham de forma desintegrada e não conseguem atender às suas necessidades.
2) Quem tá aí? Quem vai dormir no quarto comigo?
- As crianças e os adolescentes que tiveram seus destinos produzidos ativamente pela
desresponsabilização e pelo abandono.
Maria perguntou. Flávia escutou. Escutou de fato não quando a ouviu, mas quando fez o
movimento de buscar as respostas. Elas estão aí, mas só provocarão mudança se o Estado,
os governos e a sociedade as escutarem. Se nós as escutarmos. É, afinal, de escuta que se
trata.
Flávia desconhece o paradeiro de José. Raquel foi libertada ao completar 18 anos. Mas o que
há para Raquel depois do que fizemos com ela? É possível, é moral, é decente dizer à
Raquel: vá estudar, vá trabalhar, vá construir uma vida? “É uma marca tão profunda que
pessoas como Raquel, mesmo saindo da instituição, continuam institucionalizadas”, diz Flávia.
“A institucionalização parece uma grande máquina que suga a potência humana, criando seres
humanos sem desejo. A institucionalização é a patologia mais grave da saúde mental.”
Aos 19 anos, Raquel hoje perambula pelas ruas e albergues de São Paulo, ao redor das
instituições. Às vezes declara-se “louca” e é internada por curtos períodos. Raquel sempre
pergunta pelo seu melhor amigo:
- Onde está José?
Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficção Coluna Prestes - o Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém vê,
O Olho da Rua, A Menina Quebrada, Meus Desacontecimentos e do romance Uma Duas. Email: elianebrum@uol.com.br. Twitter:
@brumelianebrum
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ELIANE BRUM 17 MAR 2014 - 13:03 BRT
A “menina louca”
tinha indagado
sobre a estrutura
do Estado e da
sociedade que a
obrigava a dar o
primeiro passo
COLUNA
Como se fabricam crianças loucas
Os manicômios não são passado, são presente. Uma pesquisa realizada no hospital psiquiátrico
Pinel, em São Paulo, mostra que, mesmo depois das novas diretrizes da política de saúde mental no
Brasil, crianças e adolescentes continuaram a ser trancados por longos períodos, muitas vezes sem
diagnóstico que justificasse a internação, a mando da Justiça. Conheça a história de Raquel: 1807
dias de confinamento. E de José: 1271 dias de segregação. Ambos tiveram sua loucura fabricada
na primeira década deste século
Arquivado em: Opinião Psicologia clínica Crianças Psicologia Doenças mentais Hospitais Infância Assistência sanitária Especialidades médicas Previdência
Problemas sociais Doenças Medicina Sociedade Ciência Saúde
Em uma noite de novembro de 2007, a psicóloga Flávia Blikstein escutou de uma menina duas
perguntas. E descobriu que não tinha respostas. Flávia trabalhava num Centro de Atenção
Psicossocial (CAPS) infantil, em São Paulo, e encontrava-se na ambulância para levar a garota
para sua primeira internação psiquiátrica. Maria, como aqui será chamada, tinha 14 anos. Era
negra, alta e magra. Falava pouco, frases curtas. Gostava de brincar de boneca e de desenhar.
Às vezes pintava as unhas, arrumava o cabelo, anunciando a adolescência. Maria se molhava o
tempo todo, em pequenos rituais. Abria a torneira, fazia uma conchinha com as mãos e
molhava os pés, as pernas, os braços. Fazia isso em qualquer lugar, causando vergonha à
mãe. Talvez Maria estivesse esculpindo com a água os limites do próprio corpo. Quando fez a
primeira pergunta à Flávia, ela ainda tinha as pontas dos dedos úmidas, e o seu olhar também
era molhado:
- Por que eu vou ficar aqui?
Flávia descobriu que não tinha resposta.
Maria fez então a segunda pergunta:
- Quem tá aí? Quem vai dormir no quarto comigo?
Flávia descobriu que não tinha resposta também para essa. Não tinha resposta porque, ao
contrário do que costuma acontecer quando crianças e adolescentes nos mostram a face do
abismo, ela tinha escutado as perguntas. Escutado mesmo. A “menina louca” tinha indagado
sobre a estrutura do Estado e da sociedade que a obrigava a dar o primeiro passo para dentro
de uma instituição psiquiátrica. Talvez Maria intuísse que esse passo poderia ser longo. Talvez
Maria adivinhasse que os dentes do sistema estavam à sua espera, logo ali.
Flávia abraçou Maria. E pediu desculpas por não saber responder. Maria entrou, carregando
olhos molhados e pontos de interrogação.
O que Maria perguntou à Flávia, perguntou a todos nós: por que, no
século 21, crianças e adolescentes brasileiros, a maioria filhos de
famílias pobres, continuam a ter suas vidas mastigadas num hospital
psiquiátrico. A “criança louca” fez aos normais a pergunta mais lúcida:
por que a condenavam a uma existência de manicômio. A habitar um
mundo de dor, vagando entre paredes, desvestindo a si mesma para
vestir um uniforme, sem direito ao desejo. Por que lhe negavam a
humanidade tão cedo.
Flávia não pôde esquecer as perguntas, menos ainda a sua falta para dentro de
uma instituição
psiquiátrica
Flávia sabia que aquilo que
se costuma chamar de
arquivo morto era bem vivo.
Então, botou-o para falar.
Analisou 451 casos,
correspondentes a 611
internações ocorridas entre
janeiro de 2005 e dezembro
de 2009
respostas. Dedicou-se a buscá-las. Encontrou-as no arquivo do
Núcleo da Infância e da Adolescência (NIA) do Centro de Atenção
Integrada em Saúde Mental (CAISM) Philippe Pinel. O Pinel é uma
das instituições de referência para internação de crianças e
adolescentes com problemas mentais no estado de São Paulo.
Flávia sabia que aquilo que se costuma chamar de arquivo morto era bem vivo. Então, botou-o
para falar. Fechou-se na pequena sala bordada de estantes durante todos os sábados de um
ano inteiro. Analisou 451 casos, correspondentes a 611 internações ocorridas entre janeiro de
2005 e dezembro de 2009. Destes, 79% das crianças e adolescentes haviam sido internados
apenas uma vez. Os 21% restantes tiveram de duas a sete reinternações. Alguns casos, que
continuaram a voltar ao Pinel, ela acompanhou também nos anos de 2010 e 2011. Flávia
queria saber qual era o percurso que levava crianças e adolescentes ao hospital psiquiátrico
como primeira providência – e não como exceção pontual e por tempo determinado.
O arquivo do Pinel ficava logo abaixo da enfermaria das crianças e adolescentes. Enquanto
pesquisava, Flávia podia ouvir os gritos. Percebeu, porém, que mais do que gritos havia um
silêncio longo. Um silêncio, nas suas palavras, “estranho e profundo, um silêncio que não
imaginamos num lugar cheio de crianças e adolescentes”. Dentro do arquivo, não. Os
prontuários contavam histórias. Ainda que a voz de meninos e meninas ressoasse mais nas
ausências, nas entrelinhas, os prontuários diziam de infâncias aniquiladas numa vida de
manicômio. E mostravam por que caminhos a fabricação de crianças loucas é uma verdade
profunda do Brasil. Flávia chamava o arquivo de “sala das almas”. E as almas falavam.
Duas crianças, que se transformaram em adolescentes no hospital psiquiátrico, contaram
histórias que poderiam ilustrar livros escabrosos sobre os manicômios do passado, mas que
se passaram na primeira década desse século. Aqui, elas serão chamadas de José e de
Raquel. José permaneceu confinado por 1271 dias – ou três anos e cinco meses. Raquel, por
1807 dias. Ficou trancada dos 11 aos 16 anos – e de lá foi transferida para outra instituição
psiquiátrica. José e Raquel estavam segregados no Pinel, a mando da Justiça, sob reiterados
protestos da equipe técnica. Foram depositados como coisas no Pinel porque ainda é este o
destino dado a crianças como eles no Brasil.
Por quê?
É preciso prestar muita atenção às respostas que Flávia encontrou.
Sua escuta de três mil horas dentro do arquivo transformou-se numa
dissertação de mestrado em psicologia social na Pontifícia
Universidade Católica (PUC) de São Paulo. Somando-se a trabalhos
fundamentais de outros pesquisadores do tema, tanto em São Paulo
como em vários estados do Brasil, a investigação mostra por que os
manicômios persistem apesar das diretrizes da política de saúde
mental e do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). A Lei nº
10.216, de 2001, orientada pela reforma psiquiátrica, prioriza o
atendimento em rede, em serviços inseridos na comunidade, perto
da família, e determina que a internação só pode ocorrer depois de
esgotados todos os recursos extra-hospitalares. Não é o que
acontece em casos demais.
“Medievais”, “desumanos” e “criminosos”. Essas são algumas das palavras usadas para definir
os hospícios desde que a luta antimanicomial se intensificou a partir do final dos anos 1970 e
conquistou avanços significativos nesse século. A pesquisa mostra, porém, que mesmo
instituições e profissionais que tentam fazer diferente são seguidamente vencidos pelas
engrenagens e pela escassez de serviços públicos de base. Na prática, ainda hoje, é de
manicômio e de vida manicomial que se trata em uma parte significativa dos casos, uma
realidade só possível pelo descaso quase absoluto da sociedade com o destino dessas
crianças, em geral filhas de famílias pobres. Ao fazer o arquivo morto falar, Flávia constrói
respostas que precisam ser escutadas se quisermos, de fato, estancar o crime de fabricar
crianças loucas – e, muitas vezes, também o de conseguir enlouquecê-las.
Ela queria saber
qual era o
percurso que
levava crianças e
adolescentes ao
hospital
psiquiátrico como
primeira
providência – e
não como exceção
pontual e por
tempo
determinado
Raquel nasceu em 1994. A mãe estava presa por tráfico de drogas, não porque era chefe de
uma organização criminosa, mas porque vendia uma pequena quantidade para sustentar seu
próprio vício. Esse destino é comum nos presídios do país, é também gerador de órfãos de
mães vivas. Pobre demais para dar conta dela, a avó colocou Raquel num abrigo aos cinco
anos. A menina é de imediato descrita como “agressiva”. E, por esse motivo, é afastada das
outras crianças. Passa a morar com o que se chama de “mãe social”, isolada numa casa nos
fundos do abrigo. A escolha, como mostra Flávia, evidencia que, desde sempre, a resposta à
agressividade de Raquel é a exclusão. Obviamente, também não deu certo. De abrigo em
abrigo, Raquel virou aquela que “não dava certo” em abrigo nenhum.
Talvez valesse a pena perguntar se a agressividade, ao se olhar para o contexto e as
circunstâncias, não era o principal traço de sanidade de Raquel. Mas o direito à história é o
primeiro a ser arrancado das “crianças loucas”. Ela já tinha quase tantos rótulos quanto anos de
vida: filha de presidiária, abandonada, agressiva, não dá certo... Raquel só era vista por
estigmas e fragmentos.
Negra como Maria, ela foi internada pela primeira vez em 2005, aos
11 anos. Entrou no sistema por ordem da Justiça. Antes de
seguirmos o seu destino, é crucial entender as duas formas de
entrada nas instituições psiquiátricas, identificadas pela pesquisa.
Nelas se encontra uma das chaves para compreender a fabricação
das crianças loucas no Brasil atual. Assim como os caminhos pelos
quais é mantida viva a função histórica dos manicômios como lugar
de segregação daqueles que são decodificados como perigosos
para a ordem social, ainda que sejam apenas pobres e
abandonados.
Em pouco mais da metade dos casos – 55% – o pedido de
internação psiquiátrica foi feito por familiares e por diferentes
serviços da rede de saúde. Nos outros 45%, crianças e
adolescentes foram internados por ordem judicial. Estes são os dois
caminhos de entrada nos hospitais psiquiátricos. A pesquisa
mostrou, porém, algumas diferenças fundamentais para
compreender o problema: no período pesquisado, a Justiça internou
mais cedo, por mais tempo e mais vezes. A maioria dos casos era
de adolescentes, mas as crianças respondiam por 20% das internações por ordem judicial.
Pela via da rede de saúde, menos de 6% eram crianças. Por ordem judicial, o tempo médio de
internação era quase o dobro (55 dias contra 30). A Justiça também foi responsável por 92%
das internações com duração maior do que 150 dias. Entre os 14 casos que sofreram
internações de quatro a sete vezes, 12 tinham sido confinados por ordem judicial.
Entre eles, Raquel. Dos 11 aos 16 anos, ela foi internada seis vezes no Pinel. A queixa da
primeira vez: “Paciente institucionalizada há oito meses (nome de outro hospital), com
transtorno de comportamento, heteroagressiva (agressividade dirigida a terceiros), em
tratamento ambulatorial pouco resolutivo”. Depois de seis dias, o Pinel deu alta e a menina foi
encaminhada a um abrigo. Oito dias mais tarde, ela foi novamente internada por ordem judicial:
“Paciente portadora de transtorno de conduta grave. Uma vez no abrigo, voltou a ficar
agressiva. Crítica seriamente comprometida, ameaçadora”. Outros 19 dias de internação, e o
Pinel pediu à justiça que ela tivesse alta. Passada uma semana, o pedido foi atendido, e ela
voltou ao abrigo. Mais três dias e Raquel de novo foi internada no Pinel por ordem judicial: “Ao
retornar ao abrigo volta a apresentar quadro importante de liberação de agressividade e falta
de controle de impulsos”. Raquel ficou trancada no Pinel por 1004 dias.
Nessas três primeiras vezes, tornou-se evidente que a justiça internava e o hospital liberava,
porque não havia razão para manter Raquel confinada. Documentos anexados ao prontuário
mostram que a direção da instituição enviou diversos relatórios à justiça, tanto informando da
alta médica da paciente quanto pedindo encaminhamento a um abrigo e tratamento
ambulatorial. Num dos documentos, a direção afirma: “Nosso hospital está fazendo o papel “Medievais”, “desumanos” e
“criminosos”. Essas são
algumas das palavras usadas
para definir os hospícios
desde que a luta
antimanicomial se
intensificou a partir do final
dos anos 1970
No total, Raquel
ficou trancada no
Pinel cinco anos.
Sublinha-se: sem
necessidade. Sua
vida cabe em três
caixas do arquivo. Mas esse não foi o
fim de sua
trajetória
manicomial. Em
2010, aos 16 anos,
ela foi transferida
para outro hospital
psiquiátrico
Abrigo para esses adolescentes. Sabedores dessa ilegalidade pedimos com urgência uma
resolução para esse problema”. E, em outro ofício: “Atualmente a adolescente continua
residindo na enfermaria para tratamento de pacientes agudos, encontra-se longe da escola e
com enormes prejuízos psicológicos e sociais”.
A cada três meses, o Pinel mandou ofícios à justiça. Só foi atendido
depois de quase dois anos e nove meses. Mas a vida de Raquel fora
do hospital durou apenas uma semana. Mais uma vez ela foi
internada na instituição. O motivo: “Evolui com episódios recorrentes
de agressividade, fugas necessitando atendimento em unidades de
emergência. Há dois dias em acompanhamento no CAPS sem
aderência ao tratamento”. Depois de mais 413 dias de internação,
Raquel fugiu do hospital. Voltou espontaneamente dois dias mais
tarde. Para onde mais ela iria, já que o longo período de
confinamento esgarçou ainda mais os frágeis vínculos familiares e a
impediu de criar novos?
Raquel permaneceu internada mais 244 dias, antes de ser encaminhada a outro abrigo. Quinze
dias fora do hospital, e a justiça mandou-a de volta: “Jogou fora seus remédios, quebrou o
vidro da brinquedoteca, feriu-se, pegou o telefone para se enforcar e fugiu para uma cidade
vizinha dizendo que ia procurar seus avós”.
Na sexta vez, está registrado no prontuário: “A paciente verbaliza que a maior dificuldade que
enfrentou no retorno ao abrigo foi uma sensação de inadequação na convivência com
adolescentes sem problemas psiquiátricos; infelizmente, criou-se um vínculo inadequado
iatrogênico (provocado pela própria prática médica) de segurança com o ambiente de
internação, o que se configura como Hospitalismo”.
Em outras palavras. Raquel não sabia mais viver fora do hospital psiquiátrico, seus vínculos
estavam dentro da instituição. Se tinha a algum afeto, era ali. Era no hospital que ela sabia
como se comportar, identificava uma rotina, fazia amigos entre outras crianças e adolescentes
como ela ou realmente doentes. Considerava profissionais de saúde como parentes. E, mais
tarde se saberia, quebrava coisas e agredia pessoas quando era mandada para o abrigo
porque sabia que assim voltaria àquele que era o único lugar parecido com um lar que tivera na
vida.
Nessa época, a direção do Pinel mandou mais um ofício à justiça:
“Aproveito a oportunidade para dizer da indignação dessa equipe
técnica que, por diversas vezes, acionou o judiciário solicitando a
desinternação desses adolescentes que, na ocasião, precisavam
apenas de um abrigo para moradia e dar continuidade ao
atendimento ambulatorial, tendo assim seu direito constituído”.
No total, Raquel ficou trancada no Pinel cinco anos. Sublinha-se: sem
necessidade. Sua vida cabe em três caixas do arquivo. Mas esse
não foi o fim de sua trajetória manicomial. Em 2010, aos 16 anos, ela
foi transferida para outro hospital psiquiátrico.
O diagnóstico que sustentou a condenação de Raquel a uma vida
manicomial é bastante revelador: “transtorno de conduta”. Segundo a
Classificação Estatística Internacional de Doenças (CID), “os
transtornos de conduta são caracterizados por padrões persistentes
de conduta dissocial, agressiva ou desafiante. Tal comportamento
deve comportar grandes violações das expectativas sociais próprias
à idade da criança; deve haver mais do que as travessuras infantis ou
a rebeldia do adolescente e se trata de um padrão duradouro de
comportamento (seis meses ou mais)”. Essa “patologia”, assim
como outras que compõem a CID, é contestada por parte dos
psiquiatras, psicanalistas e psicólogos, assim como por profissionais de outros campos
Em sua investigação, Flávia
mostrou que o diagnóstico
de “transtorno de conduta”
tem sido usado de modo
generalizado – e quase
displicente – para justificar
internações em hospitais
psiquiátricos
conhecimento. Mas, ainda que se aceite que essa doença de fato existe, o tratamento
recomendado é inserção comunitária – e não asilamento.
Em sua investigação, Flávia mostrou que o diagnóstico de “transtorno de conduta” tem sido
usado de modo generalizado – e quase displicente – para justificar internações em hospitais
psiquiátricos. Tanto na internação pela via da rede de saúde como na internação por ordem
judicial, o principal diagnóstico é esquizofrenia. Mas o “transtorno de conduta” tem aumentado.
Numa comparação com uma pesquisa anterior, na qual Julia Hatakeyama Joia analisou os
prontuários do Pinel entre fevereiro de 2001 e agosto de 2005, Flávia constatou que os
chamados “transtornos do comportamento e transtornos emocionais” – dos quais “transtornos
de conduta” correspondem a 75% dos casos – cresceram como motivo de confinamento. Em
2002, eram causa de 5,26% das internações. Passaram para 7,14% em 2005. E alcançaram
15,2% das ocorrências em 2009. “Em muitos casos, é diagnosticado em crianças com
episódios de descontrole e agressividade, sem que exista uma análise sobre sua história e
contexto de vida”, afirma a psicóloga. Outro dado comparativo de extrema relevância é que,
entre 2001 e 2004, a proporção de internações no Pinel por ordem judicial era de 23% do
total. De 2005 a 2009 saltou para 45%.
O “transtorno de conduta” é bem mais recorrente na internação por
ordem judicial do que na internação pela via da rede de saúde. É o
diagnóstico de um quarto das internações com duração maior do que
150 dias e por mais de um terço dos casos de crianças e
adolescentes internados de quatro a sete vezes. É o rótulo de
Raquel – e também o de José. Meninos representam quase 80%
das crianças e adolescentes internados, um dado cujas razões
precisam ainda ser melhor compreendidas.
José tinha 10 anos quando deu o primeiro passo para dentro do
Pinel, por ordem judicial. Tinha passado, segundo o relatório da
instituição, por “maus tratos, negligências e privação afetiva”.
Apresentou “comportamentos desafiadores e transgressores, o que resultou em rejeição e
abandono familiar, principalmente de sua mãe”. A mãe decidiu entregá-lo para o pai, na Bahia.
No dia da viagem, José recusou-se a ir. Ele não queria se separar da mãe. Para não ser
obrigado a viajar, por duas vezes tentou se jogar diante dos carros, na rua. A “crise de
agitação” levou à sua primeira internação. A duração: 623 dias.
Quando teve alta, José foi encaminhado a um abrigo. Permaneceu apenas três dias antes de
ser internado novamente. Dessa vez, ficou trancado por 255 dias. José fugiu. Para onde? Para
a casa de mãe. Mais uma internação, por “agitação psicomotora com intensa
heteroagressividade, baixa tolerância à frustração, sem crítica, e risco de vida”. Dessa vez,
ficou 84 dias na instituição antes de fugir novamente. Para onde? Para a casa da mãe. Na
quarta e última internação, ele permaneceu 309 dias no Pinel. Foi então encaminhado para um
abrigo. De onde fugiu. Para a Bahia, em busca de um lugar e de um afeto.
No total, José ficou 1271 dias trancado no Pinel: três anos e cinco meses. Sobre José e
Raquel, a equipe técnica do hospital enviou um ofício à Justiça, em 2008: “(...) Estão em alta
médica, mas permanecem nesta enfermaria psiquiátrica para tratamento de pacientes com
transtornos mentais agudos, privadas de ter uma vida digna, por não terem retaguarda familiar
e não existirem vagas em abrigos”. Sobre esse destino, Flávia afirma: “As internações são
motivadas por uma combinação complexa, que resulta numa situação de vulnerabilidade. A
resposta da internação psiquiátrica, além de redutora de complexidade, é ela mesma
produtora de maior sofrimento. A internação por ordem judicial revela uma concepção sobre a
infância e a adolescência pautadas no medo e no perigo. Propõe uma resposta única a todas
as situações, sem considerar diferenças, singularidades e contextos. Reduz crianças e
adolescentes ao status de paciente psiquiátrico perigoso, produzindo sua cronificação”. É
assim que se fabricam crianças loucas.
Vale a pergunta: fugir pode ter sido um ato de sanidade de José, na tentativa de não ser
enlouquecido? De algum modo, apesar de tudo e de todos, ele parece acreditar que existe um
O desafio exposto
pela pesquisa é
também o de
completar a
reforma
psiquiátrica no
Brasil. Crianças e
adolescentes,
segundo a
legislação, devem
ser tratados dentro
da comunidade,
junto à família,
sem afastamento
da escola
lugar para ele, um lugar com afeto. José, Raquel e Maria nos mostram que não há desamparo
maior do que o de uma criança num manicômio. Ninguém está mais sozinho nesse mundo do
que José, Raquel e Maria. Expostos a uma sociedade que, além de não protegê-los, os
enlouquece. Eles fogem, como José, eles quebram tudo, como Raquel, eles fazem perguntas,
como Maria. Mas estão sozinhos. E cada um de seus atos de resistência é mais um carimbo
de sua suposta loucura num arquivo morto.
Ao analisar os prontuários, Flávia conseguiu identificar claramente as
diferenças entre a internação via rede de saúde e a internação por
ordem judicial. Essas são conclusões cruciais do trabalho, porque
apontam o que funciona e o que não funciona, apontam saídas. Na
rede de saúde, a maior parte dos encaminhamentos é feita pela
emergência de hospitais, o que não é o melhor percurso. Apenas 8%
são enviados para internação por Unidades Básicas de Saúde ou por
CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) infantil, que deveriam ser a
porta de entrada para crianças e adolescentes com sintomas de
doenças mentais. Esses dados demostram a falta desses serviços,
causando desamparo na população que necessita de assistência
pelo SUS. Em vez de começarem o tratamento pela rede básica,
inserida na comunidade, o iniciam pelo fim e por aquilo que é uma
exceção necessária num mínimo de casos: a internação. A hipótese
de Flávia é de que, se houvesse mais serviços comunitários de
saúde mental, como está previsto na legislação, é provável que a
necessidade de internação fosse bem menor. Em vez do hospital
psiquiátrico, uma rede articulada, com investimento maior em
equipes de saúde mental, na capacitação e implantação do
Programa de Saúde da Família e de centros de atenção
psicossocial. “A patologização das crianças em situação de
vulnerabilidade social evidencia a precariedade da rede de atenção e cuidado, e também a
insuficiente articulação entre as políticas públicas nos campos da educação, saúde, habitação
e lazer”, afirma.
A diferença é clara na análise dos dados. Nos casos encaminhados pelos Centros de Atenção
Psicossocial, a média de dias de internação é mais baixa do que pelos outros caminhos.
Quando crianças e adolescentes são cuidados pelos CAPS depois da alta, apenas 3% são
reinternados. “Isso mostra que os serviços comunitários funcionam, mas são em número
insuficiente”, afirma Flávia. “Nos pacientes encaminhados pela rede de saúde, o hospital
funciona como enfermaria de crise. A maioria é de adolescentes de 15 a 17 anos, em seu
primeiro surto psicótico, que são cuidados e liberados. Já na internação por via judicial, o
hospital funciona como instituição de asilamento.”
O desafio exposto pela pesquisa é também o de completar a reforma psiquiátrica no Brasil.
Crianças e adolescentes, segundo a legislação, devem ser tratados dentro da comunidade,
junto à família, sem afastamento da escola. A doença, se de fato existe, deve ser
compreendida como uma das várias características – e não como a verdade única sobre
aquela criança e adolescente. Mesmo a internação, se for necessária, deve ser entendida
como uma parte da história – e não como a história inteira. A internação é um momento, não
um destino.
Flávia permanecia das 10h até as 21h de cada sábado na sala das almas do Pinel. Numa noite,
estava tão mergulhada nos prontuários que se esqueceu da hora e se atrasou para sair. O
guarda do portão recusou-se a deixá-la ir. Eram as regras. Ele não estava ali para pensar sobre
elas, mas para cumpri-las. E Flávia soube o que era estar entre muros – e não ser escutada.
Depois de um tempo que pareceu largo demais, Flávia conseguiu provar que era uma
psicóloga, fazendo um trabalho de pós-graduação para a PUC. Acredita que o fato de ser
branca, loira e de olhos azuis possa ter ajudado na sua “soltura”. Mas, ao abrir o portão, o
segurança alertou: “Na próxima vez, fica”. Por um momento, trêmula, Flávia teve uma tênue
aproximação do que sentiram Raquel, José e Maria, apenas três entre as centenas de
“crianças loucas” fabricadas nesse século.
Ao final de sua estadia no arquivo morto que ela descobriu ser vivo, Flávia finalmente tinha as
respostas para Maria.
1) Por que eu vou ficar aqui?
- Porque as instituições que compõem a rede de atendimento à criança e ao adolescente
trabalham de forma desintegrada e não conseguem atender às suas necessidades.
2) Quem tá aí? Quem vai dormir no quarto comigo?
- As crianças e os adolescentes que tiveram seus destinos produzidos ativamente pela
desresponsabilização e pelo abandono.
Maria perguntou. Flávia escutou. Escutou de fato não quando a ouviu, mas quando fez o
movimento de buscar as respostas. Elas estão aí, mas só provocarão mudança se o Estado,
os governos e a sociedade as escutarem. Se nós as escutarmos. É, afinal, de escuta que se
trata.
Flávia desconhece o paradeiro de José. Raquel foi libertada ao completar 18 anos. Mas o que
há para Raquel depois do que fizemos com ela? É possível, é moral, é decente dizer à
Raquel: vá estudar, vá trabalhar, vá construir uma vida? “É uma marca tão profunda que
pessoas como Raquel, mesmo saindo da instituição, continuam institucionalizadas”, diz Flávia.
“A institucionalização parece uma grande máquina que suga a potência humana, criando seres
humanos sem desejo. A institucionalização é a patologia mais grave da saúde mental.”
Aos 19 anos, Raquel hoje perambula pelas ruas e albergues de São Paulo, ao redor das
instituições. Às vezes declara-se “louca” e é internada por curtos períodos. Raquel sempre
pergunta pelo seu melhor amigo:
- Onde está José?
Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficção Coluna Prestes - o Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém vê,
O Olho da Rua, A Menina Quebrada, Meus Desacontecimentos e do romance Uma Duas. Email: elianebrum@uol.com.br. Twitter:
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